Páginas

sábado, março 20, 2010

Acordes





A guitarra de Santana
O barulho da chuva
O sangue esmagado
Olhares se desencontrando
Quem sabe uma gaivota?
Movimenta-se o mar
Me chama
Me encanta
Me atrai
Vem cantar comigo
Em noite de luar
Canta a chuva
Me chamando para dançar
Em plena 409 cheia de malandragens
Como uma deusa da luz
Segue Santana
Leva a chuva ao vento
Dança como beija-flor
Quero voar em teus acordes
Com cheiro de terra molhada.

terça-feira, março 16, 2010

Cidadão Pipoca ou salve-se quem puder?





Por Pedro César Batista

Na Grécia antiga havia a Ágora, local onde os cidadãos se reuniam para debater política, filosofia e artes. As camadas subalternas não participavam. Platão pensou na República, elaborada por Montesquieu, implantada em quase todos os países na atualidade. O sistema representativo, assim como faziam os gregos, limitou a discussão aos escolhidos.

Quatro linhas sintetizando milhares de anos. Ousadia inspirada nas palavras do ministro da cultura Juca Ferreira. Recentemente foi pedido por seu partido para se afastar do cargo para se dedicar a campanha da candidata verde, Marina Silva, à Presidência da República. Disse Ferreira que preferiu continuar no governo e ser um “cidadão pipoca”. Na Bahia, terra do ministro, aqueles que não têm acesso aos blocos durante o carnaval, brincando do lado de fora das cordas de segurança, são chamados de “pipoca”. Como na Grécia quem não podia comprar a abada fica de fora.

No Brasil atual parcelas enormes da população não podem comprar abadas de várias espécies: plano de saúde, boa educação, acesso a cultura, viagens, segurança, moradia e, nem mesmo, uma alimentação de qualidade. E lemos que uma autoridade de Estado achincalha a realidade, dizendo que agora vai ser “cidadão pipoca”.

A política é uma ciência para buscar soluções coletivas de uma sociedade. As classes a utilizam na defesa de seus interesses no confronto com seus opositores. Ocorre que esse tema se tornou assunto corriqueiro para indiciar criminosos e auxiliar os que buscam ouro a ficarem rico mais rápido. Para isso, partidos, ideologias e princípios tornaram-se mercadoria sem interesse. Usa-se conforme o momento e a necessidade.

A essência da democracia é a garantia da participação na tomada de decisões pelos governantes na condução dos negócios do Estado. A sociedade para isso tem alguns instrumentos: organização, debates, eleições, conselhos, conferências, etc. A internet trouxe novas ferramentas, as quais otimizam os debates, podendo contribuir para uma relação mais fraterna, solidária e revolucionária para construção da humanidade. Infelizmente não é isso que presenciamos. Prevalece-se o sentimento do “cidadão pipoca” ou o salvem-se quem puder no ritmo frenético desse tempo que vivemos.

quarta-feira, março 10, 2010

Brasília, 50 anos: cidade shopping center




Por Pedro César Batista


Brasília, marco da arquitetura moderna, capital pensada por José Bonifácio, chega aos cinqüenta anos transpirando amor e ódio, cheia de contradições e com fortes características de um grande shopping center. A cidade que, segundo alguns, será salva das catástrofes naturais, com os escolhidos, usuários de seus encantos e belezas, em suas alamedas floridas, arborizadas e o Lago Paranoá, com suas belas margens servindo aos mesmos que serão salvos, mantêm à margem os que não podem comprar os produtos e serviços oferecidos.

Resultado do trabalho dos candangos e da ousadia de um governante, que conseguiu no meio do nada levantou uma cidade, tornou-se símbolo de ostentação. A cidade planejada, depois de 50 anos de sua fundação, superou em muito seu projeto inicial. Pensada para ser uma cidade com fortes relações humanas, onde a vizinhança tivesse a oportunidade de se (re) encontrar no comércio da quadra, nos clubes das quadras, nos locais de trabalho e lazer, em seus inúmeros parques. A solidão dos grandes centros, nesse mundo contemporâneo, transborda nas avenidas da capital federal.

Seis meses após sua inauguração Sartre e Simone de Beauvoir passaram alguns dias na cidade que nascia. Simone registrou: “Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.” Cresce a indefinição do que seja de fato essa bela cidade, cosmopolita e interiorana, com coronéis de todas as partes, misturando cores e lados.

Seus moradores cada vez mais se portam como consumidores, tendo como Deus o vil metal. Até as bandas internacionais de pop stars descobriram a mina para vender shows. As largas avenidas são ampliadas e recebe complexos viários como presente de aniversário. O criador desse novo canteiro de obras aproveitou para cobrar propinas e terminou na cadeia. O vice-governador, especulador imobiliário, teve que renunciar para não acabar fazendo companhia ao principal chefe da roubalheira.

Os habitantes da cidade shopping center têm acesso aos bens de consumo da melhor espécie, uma qualidade de vida que todos os humanos merecem. Essas características possibilitam fazer esse paralelo, quem mora em Brasília, ou seja, no Plano Piloto, possuindo bons empregos, tem acesso à arte, a cultura, a educação, a viagens, planejamento familiar, crescimento intelectual e excelente qualidade de vida. Quem não pode se sacode, não tem transporte coletivo, não tem saúde, trabalha em subempregos e recebe educação de péssima qualidade.

Como um shopping center Brasília existe, muitas luzes, bons produtos, segurança, cultura e vida. O aeroporto possui um enorme fluxo, diferenciando-se da rodoviária central, onde milhares de trabalhadores lembram um formigueiro entrando nos ônibus sujos, velhos, lotados e caros. Quem tem poder econômico usufrui de seus serviços e produtos, quem não tem poder aquisitivo é serviçal, força subalterna dos habitantes da capital federal. O sonho de seu pensador virou a força do consumo e do capital, resultando em representantes corruptos e cínicos.

Em sua nova etapa a cidade precisa servir a todos os seus habitantes, permitir que suas alamedas, suas casas de espetáculos e shows, sua qualidade de vida, seu belo horizonte, suas flores, atendam e sirvam ao conjunto da população. A cidade não merece ser o shopping center da minoria que ostenta poder e privilégios. A vida oferecida pela cidade tem que ser justa, solidária e coletiva, incluindo os filhos e filhas dos candangos que construíram a cidade. A sede do poder brasileiro precisa ser exemplo ético e de dignidade humana.

segunda-feira, março 08, 2010

Dia Internacional da Mulher

Vida pura

08/03/2010, Brasília - DF


Mulher é semente de sonhos,
combatente pela vida,
inspiradora da conquista
de um mundo mais justo e fraterno.

Mulher é a primeira a sentir a dor,
da sociedade patriarcal,
da opressão de gênero e de classe
que se abate sobre os excluídos,
a primeira a sofrer a violência do capital.

Mulher é como noite enluarada,
encanta corações e almas,
anima a esperança,
encanta as borboletas nas manhãs
ainda umidecidas de amor.

Mulher é sempre vermelha,
do sangue que derrama todo mês,
do amor que dá a quem ama,
da força que semeia em sua vida,
da sensação de segurança que transmite.

Mulher lembra Rosa Luxemburgo,
Dandara e sua ousadia guerreira,
Anita Garibaldi, Pagu,
Margarida Alves,
Olga Benário,
Cora Coralina,
Haydeé Santamaria,
Mercedes Sosa,
Alexandra kolontai,
Simone de Beauvoir,
Frida Kahlo,
Maria Quitéria.


Mulher é terra livre,
mãe universal,
astro infinito,
resplancendo galaxias,
fortalecendo universos.

Mulher é vida,
é conquista da vida,
é terra fértil,
é coragem e luta.

Mulheres em luta - II

terça-feira, março 02, 2010

É preciso inspiração






O medo, a insegurança e a paranóia tomam conta das pessoas. O consumo é a energia de bilhões de seres perdidos no planeta. Um ritmo industrial que o planeta não suporta. Cresce a solidão por todos os lados, os humanos encontram-se em máquinas eletrônicas que determinam seus passos, sonhos e desejos. 2001 - Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, é presente nos lares. As relações são artificiais, virtuais, o real é inseguro, dá medo. Tudo é assustador. A mediocridade e ogoísmo se disseminam com a velocidade do desenvolvimento técnico-científico. A sensibilidade é coisa que não se vê com frequência, aliás, tornou-se raridade.

O tempo avança com uma velocidade inimaginável. Junto a mídia manipula as consciências, os telejornais, com seus bonecos ventríluocos, conseguem falar de moda logo depois de uma catástrofe, como se nada tivesse ocorrido. As almas parecem não mais se assutarem com as pessoas. Até quando resistiremos a isso? Essa velocidade faz o medo se apossar das pessoas. Um medo que fragiliza a espécie. Inventam-se situações absurdas para propagar a insegurança individual, a hipocondria, a busca desesperada pela saúde artifificial. As guerras imperialistas continuam, com ataques aos mais pobres com medo de que estes se rebelem. Os mais pobres sonham com os modelos impostos pelo mercado, com o que a mídia massacra em mentes, corações e corpos.

Apesar de tudo ainda tenho no Selvagem, personagem de Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, meu favorito. É preciso sonhar e acreditar. Única possibilidade de assegurar sobrevida a espécie. Ainda podemos, basta se rebelar, continuar se inspirando no voo do beija-flor, no canto do sabiá, no sorriso de uma criança.