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terça-feira, junho 29, 2010

Busca do tempo


O tempo passa. Muito rapido. Os cabelos ficam grisalhos. Os olhares mais profundos e longos. A pele ensejando mais repouso e acalentos - que fogem. O tempo avanca. Veloz. Assim como a rajada do vento frio aqui em Santiago. As pessoas caminham rápido pelas ruas. Os metrös, os onibus lotados. Todos correm. Onde irao? Onde vou? Desejos e a realidade se chocam. Conflitam. Encontram-se em sonhos e em dores das perdas e desilusoes.

Faz frio onde estou. Muito frio, porem estou agasalhado, alimentado e abastecido de sonhos e duvidas como vivenciá-los. Isso aumenta o frio. Aumenta a solidao. Cresce com a mesma velocidade do tempo que me acompanha. Fortalece a escolha feita ainda adolescente. Escolha cheia de perdas, dores, sangue e prisoes. Assim alimenta a alma da certeza de que foi o melhor caminho.

Vi muitas conquistas. Vi muitas dores. Vi amigos mortos. Vi amigos esquecerem o povo e a luta. Vi muitos permanecerem firmes independente das dores e desilusoes. Muitas imagens e lembrancas repletas de importancia historica para o povo, a humanidade e para a vida. Muitas aprendizagens que fortalecem a certeza de que acertei na escolha. Minhas perdas pessoais sao mui pequeñas e insignificantes diante de tantas injusticas combatidas e derrotadas. Quanta vida semeada e germinada na caminhada.

O tempo avanca. Forte, cruel e iluminado. Sigo com ele, desejo ir longe, muito longe. Mesmo solitário na caminhada quero seguir adiante pelo porvir repleto de criancas felizes e sorridentes caminhando por suas imaginacoes e sonhos de maos dadas, com seus bichos de estimacao, suas maes e pais. O tempo ensina e encanta. Faz querer adentrar em suas ondas e se transformar em forca capaz de virar o mundo e fazer o povo ser fogo para incendiar a exploracao e a mentira da burguesia e exploracao milenar. Velhos sonhos ainda adolescenes e juvenis para a historia do mundo.

Hoje o Brasil venceu no futebol o Chile, durante o futebol do chile -
http://militantedocampo.blogspot.com/2010/06/como-desejaria-estar-errado.html
como se isso tivesse alguma importancia para a vida. Isso somente fará aumentar o volume da riqueza de alguns, mais nada. Entao o que comemorar, se minha virada de ano na vida ainda mantem as mesmas necessidades históricas e coletivas. O que comemorar? Estou em uma terra bela, cheia de lutas e história, só e sonhando. Ainda sonhando, apesar de meus 47 anos que chegam. O tempo avanca. O sigo em sua busca.

A vida dos outros

http://perfumedodeserto.blogspot.com/2010/06/vida-dos-outros-ou-o-que-fazemos-com.html?showComment=1277778840235_AIe9_BGZQibFrCSo4JBS1DkuiJZEM6fAC-dWAmTf3XC_Liz-swpY-T8PNDkN0LoePTsIMMPY5SW0aZgJLFbVgmf68xIiEfWPYQRF2B71zdVZNRM_IIRhhn9fKO7289icWK2p3K6-75z3w3ndehhVJB3cr5TubXX_72B4drEiUguQapSO6W9TUuX94xyceWAYoMdC9FEPDziOLtT6B-CjhwROJaccZmZtQIOlZcjyYCjun52J7Ll9W5X5-QOwqVHdvtkLjFSTpxZ0#c7119087692964291849

Um filme intrigante. Principalmente quando se analisava as pesquisas realizadas nas duas Alemanhas, anos depois de se tornarem uma apenas, em meiados da decada de 1990. Os que eram do ocidente queriam sua treanquilidade de volta, pois se sentiam "invadidos" pelos orientais, que tiravam seu sossego. Os que eram do oriente tinham saudades de suas casas, seus empregos e a "seguranca" que possuiam. Segundo essas pesquisas feitas no inicio dos anos 90, todos os alemanhaes, tanto do oriente, como do ocidente, desejavam o muro de volta.
Porém, mais intrigante eh a realidade atual. Estou no Chile e nasce aqui um novo partido, fundado pelo filho de um dirigente do MIR - Movimento de Esquerda Revolucionario assassinado perla ditadura de Pinochet. Marco Enríquez, o filho com um grupo organiza o Partido Progressista: "no somos ni de izquierda ni de derecha, sino que somos un partido abierto, transversal, que recoge los planteamientos que tanto uno y otro lado de la política comparten. Nosotros queremos modernizar nuestra sociedad de cara al siglo XXI y al bicentenario de Chile". No entanto, vejo aqui no Chile, assim como há em quase todo o planeta, a maioria recebendo baixos salários, sem ter assegurado seus direitos elementares, tais como saude e educacao. A violencia dos ricos, atraves do Estado, contra os mais pobres eh a mesma de qualquer outro lugar no mundo. Hoje, inclusive, durante a repressao dos carabineiros depois do jogo em que a selecao chilena perdeu para o Brasil, um jovem foi morto, apos ser preso, devido espancamentos sofrido dos policiais - herdeiros de Pinochet.
Nesse momento atual onde a uma uniformidade de sonhos, criados e impostos pela hegemonia liberal, que se diz humanista, mas visa os mesmos valores de sempre, dinheiro, status e poder. Consumir, luxo, riquezas é o que se busca em todo canto. Diante desse quadro o que valeu os sonhos do velho alemao, Marx, ou dos chilenos Neruda, Vitor Jara ou Violeta Parra. Como dizia Lenin: O que fazer?
Vamos continuar reunindo, resistindo, voltando as ruas, aos poroes e as garagens, tentando semear chamas do fogo da rebeldia em busca da vida e da dignidade.

quarta-feira, junho 09, 2010

V


IV


III


II


I


quinta-feira, maio 27, 2010

Minha janela

Foi muito rápido
logo as folhas verdes voltaram
suas flores roxas se foram
deixaram a saudade
das poucas palavras que trocamos
poucas vezes ela falou
todo tempo me encantando
enquanto da janela
continuava lhe mirando
junto ao luar
ou na manhã ensolarada de domingo
enquanto ouvia Bob Dylan

quarta-feira, maio 12, 2010

Candeeiro do Tempo


Pedro César Batista

Olhos cerrados não veem a manhã
Sustentam-se na escuridão do medo e do passado
Bocas enganam ouvidos
Alegram fantasmas que submergem em mentes
Bailam em cantos iludidos com o brilho das luzes
Voos arrastam almas em frágeis desejos supérfluos
Ouvidos se animam ao tilintar de 30 moedas
Falam em suas crenças
Cantam desilusões e dores
Nada crêem no amor e em Iris brilhantes
Acham que todos os olhares são cinzentos
Todos os abraços falsos
A manhã se suicida com medo do dia
Prefere a escuridão da solidão do poder
Desiste de receber a luz das flores e dos pássaros
O dia se vai
Nem noite vem
Deixa-se inebriar no tempo de dor
Onde estou que ainda sonho
Preciso acordar e voar ao infinito
Retirar as folhas que abafam meu canto
Pássaros não alimentam mais sonhos
A dor de quem não sonha
Passos sobrevoa oceanos
Desejam ser brilho nessa escuridão.

quarta-feira, abril 28, 2010

segunda-feira, abril 26, 2010

sábado, abril 24, 2010

Avante!!!!


quinta-feira, abril 22, 2010

Ocupa, ocupa e resiste.




Por Pedro César Batista

Ao longo das comemorações de 50 anos de Brasília o melhor e maio presente dado a cidade foi o exemplo dos integrantes do Movimento Fora Arruda e toda a máfia. Se não fosse por eles diria, tristemente, que tudo estava dominado. Felizmente não está, ainda há resistência e gente que sonha e luta pela dignidade.
Em abril de 2008 um grupo de estudantes da Universidade de Brasília – UnB ocupou a reitoria da instituição com uma extensa pauta de reivindicações. Começava com questões específicas chegando às gerais, como a saída do então reitor Timothy Martin Mulholland, que, entre usava desrespeitosamente o dinheiro da universidade, chegou a pagar R$ 9 mil reais por uma lixeira para o luxuoso apartamento funcional que ocupava. A ocupação na reitoria durou 18 dias, contribuindo para sensibilizar a população da importância da luta em defesa dos direitos dos estudantes e da universidade pública.
Em novembro foi descoberta a bandidagem comandada por José Roberto Arruda, governador do DEM. O policial – bandido, Durval Barbosa, havia filmado toda a divisão do butim dos recursos públicos. Brigaram entre eles e as imagens vieram a tona, depois do P2 fazer acordo para a delação premiada. Inicia-se uma grande mobilização contra a corrupção e os mafiosos que controlavam o governo em Brasília.
Em 2 de dezembro, durante a entrega de um abaixo assinado à Câmara Distrital pedindo o afastamento de Arruda, movimentos estudantil, sindicatos e organizações populares ocuparam o prédio do legislativo local. Saíram depois de uma semana de ocupação e com a ação da PM/DF, que cumpriu um Mandado de Reintegração de Posso, solicitado pelo presidente da Casa, deputado cabo Patrício (PT/DF). Na época o coordenador do DCE da UnB, Raul Cardoso, afirmou “nosso intuito é que a coisa funcione, mas como uma parcela considerável de parlamentares aparece envolvida nesse lamaçal de corrupção, a ocupação é importante para denunciar esta situação e cobrar respostas efetivas”.
Foi quando partidos e centrais sindicais chamaram um ato contra a corrupção em frente ao Palácio Buriti. Uma manifestação onde a preocupação com a institucionalidade estava em primeiro lugar. Quando os estudantes, mostrando mais uma vez criatividade e ousadia, em uma ação combativa ocupa o Eixo Monumental, em vários momentos em pontos diferentes. Foi quando os líderes sindicais pediram, usando todo o ar de seus pulmões nos microfones do enorme caminhão com som, que deixassem a rua livre. Os jovens ganharam apoio dos presentes, deixando os dirigentes partidários e sindicais falando sozinhos. A violência da PM, comandada pelo coronel Luis Henrique Fonseca – um desequilibrado serviçal do poder, foi mostrada a todo o mundo. “Os manifestantes quebraram o acordo e invadiram a pista, por isso houve o confronto”. O cinismo clássico dos militares a serviço dos governantes. Durante horas os estudantes e populares não recuaram, mesmo enfrentando a cavalaria, bombas de efeito moral e balas de borracha.
A luta dos jovens cresceu, ganhou espaço e forças. Em 11 de fevereiro de 2010 o Superior Tribunal de Justiça, por 12 votos a 3, decretou a prisão do chefe da gang, o então governador José Roberto Arruda, e mais quatro comparsas, a pedido da subprocuradora-geral da República, Raquel Dodge . O especulador imobiliário Paulo Otávio, vice de Arruda, assumiu o governo por alguns dias, terminando por renunciar ao mandato, diante do enorme volume de denúncias e pressão da sociedade. Foi como um castelo de cartas. Um terço dos deputados distritais foi denunciado por estar diretamente envolvido com a roubalheira. O novo presidente da Casa, um laranja do esquema, o deputado Wilson Lima, acabou assumindo o governo. Marcou-se então a eleição indireta para a escolha do novo governador, quando o pupilo de Roriz e Arruda, Rogério Rosso, surpreendentemente, conseguiu 13 votos - nove deles denunciados pela Caixa de Pandora, vencendo a eleição em primeiro turno. Gatos e ratos se uniram. Uma mudança para deixar tudo do mesmo jeito, como dantes na casa de Abrantes. O que importava era manter a quadrilha no comando do Distrito Federal.
No dia da eleição indireta, foi realizada uma vigília por estudantes e populares denunciando a nova farsa. Mais uma vez as ordens eram invertidas. A PM desceu o cassetete, espancando e prendendo. A Polícia Civil chegou a torturar o estudante Diogo Ramalho preso durante a resistência. Tudo para impedir o acesso dos populares às galerias da “casa do povo”.
No dia 21 de abril de 2010, milhares de pessoas foram a Esplanada ou a Funarte comemorar o aniversário de 50 anos de Brasília. Música e shows acobertavam, com a ajuda da mídia, a podridão que assola o Distrito Federal, que continua comandanda por mafiosos do velho esquema coronelista do Planalto. Enquanto a festa rolava, lá estavam os jovens na luta, com seu grito de guerra: ocupa, ocupa e resiste, mostrando a indignação e a esperança dos que muitas vezes nem sonhos têm. Os estudantes que ocuparam a reitoria, a Câmara Distrital, enfrentaram inúmeras vezes a truculência policial demonstrando a indignação que deveria ser a alma de uma população que tenha a cidadania assegurada. Nessa noite da comemoração do aniversário da capital do Brasil, o novo prédio da Câmara Distrital foi ocupado. Esse pode ser considerado o verdadeiro presente que a capital do país merece. O exemplo da resistência, da luta pela transparência, por políticas públicas, na defesa da punição dos corruptos e a intervenção, para que se convoquem, imediatamente, eleições diretas para a escolha do novo governador do DF. Os jovens lutadores da UnB, militantes da Assembléia Popular e de outros movimentos autogestionários de Brasília tem mostrado que ainda há resistência e gente que sonha e luta por um mundo melhor. Esse foi o verdadeiro e o melhor presente para Brasília. Brasília merece luta, não apatia, banditismo ou a mentira.

quarta-feira, abril 07, 2010

A chuva não mata, quem assassina são os governantes.



Por Pedro César Batista

Ver a mídia responsabilizar a chuva pela centena de mortes ocorridas no Rio de Janeiro dá náuseas e uma dor no coração diante de minha impotência. Há milênios sabemos as conseqüências das chuvas fortes. A própria bíblia mostra o dilúvio como um castigo diante das impurezas humanas.
O que não se pode aceitar é que em pleno século 21, com a ciência e tecnologia oportunizando instrumentos e conhecimentos para enfrentar os dissabores e catástrofes da natureza, ver a chuva ser responsabilizada pelos fatos ocorridos na cidade maravilhosa. Ver governantes falarem que foi a maior chuva de todos os tempos, caindo de forma inesperada e impiedosa. Suas falas dão a entender que os pobres são os responsáveis por viverem pendurados nos morros, equilibrando-se como indigentes em meio à riqueza concentrada nas avenidas e prédios luxuosos, comandados de dentro dos palácios governamentais. Lembra uma tragédia grega.
Recentemente a população mundial ficou estarrecida diante da dor e do sofrimento da população haitiana, que explorada e abandonada secularmente a própria sorte, teve centenas de milhares de mortos devido um terremoto. Por que essas catástrofes não matam dessa forma quando ocorrem em certos países? Mesmo o Katrina mostrando os milhões de miseráveis abandonados nos EUA, os ricos de Miami não sofrem com os furacões ou terremotos. Cuba, exceção, enfrenta heroicamente as intempéries e revoltas da natureza e desse modelo político dominante, dando segurança a toda a sua população. Na Itália, terremoto recente, mostrou a preparação diante dessas situações, mesmo caso do México, que durante abalo sísmico ocorrido essa semana, deixou um saldo de dois mortos. Por que essa diferença?
Chama atenção ainda a falta de indignação do chamado movimento social e das organizações populares à prática dos governantes. Solidariedade se limita a algum tipo de doação. Uma caridade que não compromete os que estão seguros em seus privilégios. Chamo isso de omissão e desumanidade. É cada um por si, nesse salve-se quem puder.
O Brasil, candidato a país desenvolvido, feliz por trazer as Olimpíadas e a Copa Mundial de Futebol, ainda possui em seus governos figuras esdrúxulas, incapazes de fazer uma autocrítica, exercer a função pública que escolheram e de assumirem suas incapacidades, seja humana ou política. A mídia brasileira ainda reproduz o cínico discurso dos responsáveis por essas mortes, pelas enchentes, pela falta de escolaridade, pela alta concentração de renda, pela violência que grassa pelo país. Violência que tem como principais vítimas os abandonados pelo Estado, “condenados pela terra”, segundo Frantz Fanon, que ainda continuam aguardando a salvação divina, pois para eles não há governo, restando-lhes apenas os morros, a chuva e as bolsas assistências.

terça-feira, março 30, 2010

sábado, março 20, 2010

Acordes





A guitarra de Santana
O barulho da chuva
O sangue esmagado
Olhares se desencontrando
Quem sabe uma gaivota?
Movimenta-se o mar
Me chama
Me encanta
Me atrai
Vem cantar comigo
Em noite de luar
Canta a chuva
Me chamando para dançar
Em plena 409 cheia de malandragens
Como uma deusa da luz
Segue Santana
Leva a chuva ao vento
Dança como beija-flor
Quero voar em teus acordes
Com cheiro de terra molhada.

terça-feira, março 16, 2010

Cidadão Pipoca ou salve-se quem puder?





Por Pedro César Batista

Na Grécia antiga havia a Ágora, local onde os cidadãos se reuniam para debater política, filosofia e artes. As camadas subalternas não participavam. Platão pensou na República, elaborada por Montesquieu, implantada em quase todos os países na atualidade. O sistema representativo, assim como faziam os gregos, limitou a discussão aos escolhidos.

Quatro linhas sintetizando milhares de anos. Ousadia inspirada nas palavras do ministro da cultura Juca Ferreira. Recentemente foi pedido por seu partido para se afastar do cargo para se dedicar a campanha da candidata verde, Marina Silva, à Presidência da República. Disse Ferreira que preferiu continuar no governo e ser um “cidadão pipoca”. Na Bahia, terra do ministro, aqueles que não têm acesso aos blocos durante o carnaval, brincando do lado de fora das cordas de segurança, são chamados de “pipoca”. Como na Grécia quem não podia comprar a abada fica de fora.

No Brasil atual parcelas enormes da população não podem comprar abadas de várias espécies: plano de saúde, boa educação, acesso a cultura, viagens, segurança, moradia e, nem mesmo, uma alimentação de qualidade. E lemos que uma autoridade de Estado achincalha a realidade, dizendo que agora vai ser “cidadão pipoca”.

A política é uma ciência para buscar soluções coletivas de uma sociedade. As classes a utilizam na defesa de seus interesses no confronto com seus opositores. Ocorre que esse tema se tornou assunto corriqueiro para indiciar criminosos e auxiliar os que buscam ouro a ficarem rico mais rápido. Para isso, partidos, ideologias e princípios tornaram-se mercadoria sem interesse. Usa-se conforme o momento e a necessidade.

A essência da democracia é a garantia da participação na tomada de decisões pelos governantes na condução dos negócios do Estado. A sociedade para isso tem alguns instrumentos: organização, debates, eleições, conselhos, conferências, etc. A internet trouxe novas ferramentas, as quais otimizam os debates, podendo contribuir para uma relação mais fraterna, solidária e revolucionária para construção da humanidade. Infelizmente não é isso que presenciamos. Prevalece-se o sentimento do “cidadão pipoca” ou o salvem-se quem puder no ritmo frenético desse tempo que vivemos.

segunda-feira, março 15, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Brasília, 50 anos: cidade shopping center




Por Pedro César Batista


Brasília, marco da arquitetura moderna, capital pensada por José Bonifácio, chega aos cinqüenta anos transpirando amor e ódio, cheia de contradições e com fortes características de um grande shopping center. A cidade que, segundo alguns, será salva das catástrofes naturais, com os escolhidos, usuários de seus encantos e belezas, em suas alamedas floridas, arborizadas e o Lago Paranoá, com suas belas margens servindo aos mesmos que serão salvos, mantêm à margem os que não podem comprar os produtos e serviços oferecidos.

Resultado do trabalho dos candangos e da ousadia de um governante, que conseguiu no meio do nada levantou uma cidade, tornou-se símbolo de ostentação. A cidade planejada, depois de 50 anos de sua fundação, superou em muito seu projeto inicial. Pensada para ser uma cidade com fortes relações humanas, onde a vizinhança tivesse a oportunidade de se (re) encontrar no comércio da quadra, nos clubes das quadras, nos locais de trabalho e lazer, em seus inúmeros parques. A solidão dos grandes centros, nesse mundo contemporâneo, transborda nas avenidas da capital federal.

Seis meses após sua inauguração Sartre e Simone de Beauvoir passaram alguns dias na cidade que nascia. Simone registrou: “Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.” Cresce a indefinição do que seja de fato essa bela cidade, cosmopolita e interiorana, com coronéis de todas as partes, misturando cores e lados.

Seus moradores cada vez mais se portam como consumidores, tendo como Deus o vil metal. Até as bandas internacionais de pop stars descobriram a mina para vender shows. As largas avenidas são ampliadas e recebe complexos viários como presente de aniversário. O criador desse novo canteiro de obras aproveitou para cobrar propinas e terminou na cadeia. O vice-governador, especulador imobiliário, teve que renunciar para não acabar fazendo companhia ao principal chefe da roubalheira.

Os habitantes da cidade shopping center têm acesso aos bens de consumo da melhor espécie, uma qualidade de vida que todos os humanos merecem. Essas características possibilitam fazer esse paralelo, quem mora em Brasília, ou seja, no Plano Piloto, possuindo bons empregos, tem acesso à arte, a cultura, a educação, a viagens, planejamento familiar, crescimento intelectual e excelente qualidade de vida. Quem não pode se sacode, não tem transporte coletivo, não tem saúde, trabalha em subempregos e recebe educação de péssima qualidade.

Como um shopping center Brasília existe, muitas luzes, bons produtos, segurança, cultura e vida. O aeroporto possui um enorme fluxo, diferenciando-se da rodoviária central, onde milhares de trabalhadores lembram um formigueiro entrando nos ônibus sujos, velhos, lotados e caros. Quem tem poder econômico usufrui de seus serviços e produtos, quem não tem poder aquisitivo é serviçal, força subalterna dos habitantes da capital federal. O sonho de seu pensador virou a força do consumo e do capital, resultando em representantes corruptos e cínicos.

Em sua nova etapa a cidade precisa servir a todos os seus habitantes, permitir que suas alamedas, suas casas de espetáculos e shows, sua qualidade de vida, seu belo horizonte, suas flores, atendam e sirvam ao conjunto da população. A cidade não merece ser o shopping center da minoria que ostenta poder e privilégios. A vida oferecida pela cidade tem que ser justa, solidária e coletiva, incluindo os filhos e filhas dos candangos que construíram a cidade. A sede do poder brasileiro precisa ser exemplo ético e de dignidade humana.

segunda-feira, março 08, 2010