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domingo, março 31, 2013

Dalcídio, o homem do Marajó



Por Guido Heleno

A verdade é que o Brasil não conhece o Brasil. Não me refiro apenas às suas paisagens, recantos turísticos, monumentos, cidades, praias e montanhas. Falo principalmente em relação à cultura, à literatura. Até hoje, salvo raríssimas exceções, estando em meio a escritores, pessoas que gostam de ler, ouso perguntar: você já leu Dalcício Jurandir? A resposta é sempre a mesma: quem? É novo? É de onde? Escreve sobre o que, mesmo? Quando estou com paciência explico que se trata do maior escritor da amazônia, que escreveu mais de dez romances ambientados no Extremo Norte. Complemento informando que é um escritor que nasceu na vila Ponta de Pedras, no Pará e fez da Ilha de Marajó o cenário principal na ambientação de personagens marcantes de seus romances. Na verdade, o principal é ele mesmo, o menino de família humilde, vivendo em um ambiente inóspito.

Dalcício Jurandir surgiu para a literatura nacional em l940, quando participou de um concurso literário promovido pela revista Dom Casmurro e Editora Vecchi obtendo o primeiro lugar com seu romance “Chove nos campos de Cachoeira”. No júri, dentre outros, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Oswald de Andrade e Álvaro Moreira. E por pouco o livro não é inscrito no concurso. Relata Dalcídio que a única forma dos originais chegarem dentro do prazo era despachando via Panair do Brasil. Mas viu que não tinha dinheiro suficiente para enviar os textos, mesmo da forma mais barata, sem recibo. Frustrado por não poder participar do concurso, lamentava o fato quando encontrou dois amigos pintores, que ao saber da razão da tristeza de Dalcício Jurandir, doaram a quantia que faltava. A correria e persistência do autor valeram e meia hora antes do avião levantar voo, os originais foram despachados.

Em 1947 publica pela José Olympio Editora seu segundo livro “Marajó”, sendo aclamado pela crítica que considerou a obra um importante documento etnográfico e sociológico, um texto literário de valor, principalmente por focar uma parte do Brasil totalmente desconhecida pela maioria dos brasileiros. Atualmente, passadas tantas décadas, pode ser que a Ilha do Marajó seja um pouco mais conhecida por seus aspectos turísticos. Mas a literatura do Dalcídio Jurandir continua não fazendo parte da leitura das maioria dos leitores, mesmo da chamada intelectualidade. Pode ser que no Pará, em Belém, devido aos vestibulares, os textos do Dalcídio sejam um pouco mais lidos. E só por isso. Triste realidade!

O primeiro livro do Dalcício Jurandir que li foi justamente seu primeiro livro “Chove nos campos de Cachoeira”. Foi uma leitura que mexeu muito comigo, que despertou em mim uma vontade compulsiva de continuar lendo seus livros, de saber mais, de ler mais o autor. Assim, pouco a pouco, consegui reunir quase todas as obras do autor. Vontade de transformar ao menos um desses livros em roteiro de cinema, de procurar produtores, diretores, vender a ideia. Vontades que não morrem, mas não avançam, não se concretizam. Falta de condições, de pique, de tempo. Ao menos tenho a alegria de saber que, desde 2003, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, existe um espaço, o Instituto Dalcídio Jurandir. Lá, graças à doação dos filhos do romancista, além dos originais de diversos de seus livros, estão correspondências trocadas com Jorge Amado, Graciliano Ramos e com o pintor Cândido Portinari, assim como todo o seu acervo particular, com mais de 750 livros de sua biblioteca.

Por ser do Partido Comunista Brasileiro e por suas ideias, Dalcídio foi preso duas vezes, passando meses encarcerado. Certamente perdeu várias oportunidades devido a seus ideais, mas nunca esmoreceu. Trabalhou em jornais, escreveu, revisou. Atuou na área de ensino e como servidor público. Mas orgulhava-se de ter conseguido ser o primeiro a se aposentar, inda pelo INPS, como escritor autônomo, isso em 1971. A maior premiação literária aconteceu em 1972, quando ganhou o Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, um justo reconhecimento da Academia Brasileira de Letras. Mas ficou nisso. No entanto, o maior e melhor prêmio que o Dalcídio Jurandir gostaria de receber é ser lido. O “Chove nos campos de Cachoeira” foi o livro que recebeu um número maior de edições, acho que à sétima. Quem sabe não seja esta a mais recomendada para leitor que seseja ingressar no universo do autor. Se encontrar, seja em bibliotecas, livrarias ou sebos, procure ler “Marajó”, “Chão dos lobos”, “Três casas e um rio”, Belém do Grão-Pará”, o que achar do Dalcídio. Sei que não se arrependerá.

Que País é este que permite que um escritor tão importante, com uma notável e original produção literária, continue em segundo plano, para não dizer no limbo: não lido, não comentado? Dalcídio se foi em 1979. Mesmo pouco lida, sua obra não passará. Algo me diz que um dia, que seja breve, ela alcance a popularidade e o sucesso que bem merece. Em uma saudação, Jorge Amado comentou o seguinte sobre Dalcídio Jurandir: “Trabalhando o barro do princípio do mundo, do grande rio, a floresta e o povo das barrancas, dos povoados, das ilhas, da ilha de Marajó, ele o faz com a dignidade de um verdadeiro escritor, pleno de sutileza e de ternura na análise e no levantamento da humanidade paraense, amazônica, da criança e dos adultos, da vida por vezes quase tímida ante o mundo extraordinário onde ela se afirma."

Tenho dito!

segunda-feira, março 18, 2013



As águas caem,
lavam o vento,
espalham partículas de esperança
aos olhares secos.

(Cachoeira de Tororó - DF)

PCB

Tempo de resistir



Desdenhe de meus sonhos,
Pense que professarei teu proselitismo,
Esperas que serei mais um em teu inventário,
Daqueles que juntados te produzirão mais força?

Desdenhe de nossas batalhas,
Acredite que nos contentaremos com migalhas,
Aceitando tragar em tua mão suja e fétida,
Como se fossemos criaturas rastejantes?

O sangue de quem te enfrentou alagou a história,
Cantamos os mortos do povo,
Espalhamos a resistência nas noites e manhãs,
Encarando tuas mentiras, balas e poder.

Desdenhe enquanto ainda podes,
Logo serás estrume sob o chão,
Fecundando novos – velhos sonhos,
Abraçados às estrelas romper teus egos,
Destruir tua tirania alicerçada na usura.

Desdenhe e cante enquanto ainda podes,
Não tardará a romper trovões e fissuras
Capazes de espalhar abraços e sorrisos,
Capazes de espalhar a vida e a dignidade.

Desdenhe, logo chegará a tua hora.

© Pedro César Batista - 2013

sexta-feira, março 08, 2013

Fogo!!!



Ao 8 de março – Dia Internacional das Mulheres

No cadência do cheiro do cangote, dos punhos armados, dos colos maternos, com alegria e coragem germina a existência.

Sem temor da vida,
incendiada em piras
das línguas encíclicas,
de moral putrefata
irrompe o alvorecer,
eclode Petúnias e Amores perfeito,
multi cores
átomos explodindo.

Olhares esverdeados,
vermelhos sonhos,
Alcança às nuvens
minando o fogo
alforriando Prometeu
destronando Zeus.

Sem recusar suas estações,
seus clamores,
os silêncios de suas vozes,
lançam a esperança.

@Pedro César Batista - 2013

terça-feira, fevereiro 19, 2013



Folhas verdes,
não são vermelhas,
nem amarelas,
nem furta-cor,
nem sem dor,
não saem da árvore
nem se importam
com a força da ventania.

Pcb

Despertar



Arde o sangue,
repulsa do fogo
que queima a fé,
assusta o olhar,
deixa as palpebras despertas,
como brasas
acordando a noite.

Pcb

No duro



Como pergunta,
os olhos observam,
a vida, o espaço.

Meus braços
procuram te conquistar,
na terra,
na flor.

Com olhos novos,
olhar o futuro,
no duro
acreditar.

Pedro César Batista - 1997

Sacra - menta



Cheiro de terra sacra,
quase menta,
santa (im) pura.

Gosto de tucupi,
jambú paralisante
na cuia.

Quente e ardente
na ponte do Galo,
Sacra - menta,
pura - santa.

Cheiro de terra
com seus santos,
leva o andor
nas águas barrentas
do Guajará.

@ Pedro César Batista

Igualdade x Liberdade

Aos nossos filhos

Por Pedro César Batista

É bastante antiga a discussão sobre o que é mais importante, se a igualdade ou a liberdade. Os defensores de cada uma das posições usam os mais variados argumentos. Desde a busca pela explicação da existência humana, com os religiosos dando sua versão, ou com a fundamentação liberal de que cada ser deve se preocupar em ser produtivo e capaz de estar inserido e com sucesso no mercado. Os mais diversos argumentos são utilizados para privilegiar a liberdade. A pós modernidade trouxe a certeza de que se precisa apenas viver o momento, o passado e o futuro não importam. A igualdade é um retrocesso, alguns chegam a dizer.

Cresce a defesa da liberdade, fundamentada no direito de consumir, usufruir os bens descartáveis produzidos pela revolução tecnológica, de vivenciar cada vez mais as oportunidades que fortalecem o individuo em detrimento da comuna, dos grupos sociais, especialmente os mais fragilizados econômica e intelectualmente. A liberdade propalada é do tamanho do poder aquisitivo de quem poderá usufruí-la, compra-la em lojas de magazine em luxuosos Shoppings Centers.

O Estado que deveria servir a toda à sociedade, especialmente aos mais necessitados, cada vez se torna mais excludente em suas ações, mais eficaz no atendimento aos interesses dos que controlam a riqueza, o conhecimento e à política. Os governantes, independente de partidos, transformam-se em serviçais dos valores do sistema que se sustenta no individualismo e consumo.

O personagem representado por Maria de Medeiros, na peça Aos nossos filhos, de Laura Castro, afirma durante um diálogo para a sua filha: “Hoje vocês podem escolher, no passado, nem isso podíamos”. Usou o argumento para mostrar que os que lutaram contra a ditadura e foram obrigados a enfrentar as piores adversidades, tais como a tortura e a morte, não tinha outro caminho, a não ser o da luta renhida e dura. Enquanto a juventude da atualidade preocupa-se predominantemente pelas questões da individualidade, em detrimento da busca de um sonho coletivo.

Claro que esse comportamento não se limita a juventude, assim como os que ainda combatem os conceitos propalados pelo liberalismo são de todas as idades. O que importa não é a faixa etária, mas a necessidade de se romper os valores que se sustentam no lucro e no consumo. É preciso resgatar a história, os sonhos e a utopia em um mundo onde todos tenham a igualdade de oportunidades de acesso ao conhecimento, à dignidade e aos sonhos.

O texto da peça Aos nossos filhos mostra o que conquistamos e entregamos aos jovens da atualidade, apesar de estar literalmente tudo dominado pelos valores liberais, pode-se viver a liberdade do debate e das discussões, sem o medo do “desaparecimento”. Diante desse quadro qual será a herança deixada aos meus netos, bisnetos e tataranetos. O que virá?

Espasmos



Solenemente o paciente vira cliente,
O supérfluo se torna necessidade,
O norte se perde em escadas rolantes.

Um ar radioativo invade almas,
Contadas por contas bancárias,
Gerando tumores malignos em cifras.

Vale tudo pelo instante,
Ser feliz em cores radiantes,
Não importa se em fumaça
Feita em latas e cabeças vazias.

Festeja-se a escuridão,
Dentro de aparelhos entubados
Que não levam ao mundo de Alice
Ou ao planeta de Saint-Exupéry.

Descobrir novamente o novo,
Dar asas ao povo,
Sem se abater em fadiga
Dos passos cansados pela desilusão.

@ Pedro César Batista – 2013
Meu coração é minha bússola,
não tem receio em erguer os punhos,
combater a morte,
nem semear rosas e sonhos.

Pcb

Flores vermelhas





Marchas enfrentaram o passado,
Muros registraram sonhos,
Abraços desencontrados nas noites
Seguiram caminhos diversos,
Filhos agora deixam os pais em pé.

Amigos de combate no poder,
Velhos camaradas defendendo o Estado,
Sem transformar a estrutura,
Carcomida pelas traças do capital.

Palavras confundem-se ao entardecer.

Organizações gerenciam o sistema,
Líderes se esbanjam em banquetes,
Vozes solitárias se dizem coletiva.

Dores romperam a escuridão da mentira,
Propagaram flores de todas as cores,
Ainda vermelhas e sem desbotar,
Nascidas em corações pulsantes.

Caminhar sem medo da traição,
Nem da solidão do sonho,
Nem aspirando salários pagos pela Justiça,
Onde poucos sorvem a felicidade.

Tentar ler olhares sinceros,
Viver abraços fortes e longos,
Sorrisos acreditando que nada foi em vão.

Seguir as flores que enfrentam
Ervas daninhas e sorriem ao amanhecer.

@ Pedro César Batista

sábado, fevereiro 02, 2013

Leve longa chuva



Passos anotam a história,
Deixam quadros indeléveis
Pendurados na parede do tempo.

Abraços são encharcados em sangue,
Misturam-se a terra
Que recebe sementes estéreis,
Desbotando desgostos e prantos.

O menino de dentes apodrecidos
Prossegue pedindo trocados,
Carece cheirar a fumaça que lhe anima,
Fazendo-lhe crer que ainda vive.

Sonhos viraram preleções oficiais,
Escritas sem alma em máquinas frias.

Encargos viraram cargos,
Espaços de poder para ter
Serviçais dóceis e submissos.

A chuva leve longa persiste,
O homem parado no farol
Continua correndo entre os carros,
Insiste,
Gesticula dramaticamente,
Olha nas janelas,
Que permanecem fechadas
Com motoristas assustados.

Ideais vêm e vão como o mar,
Continuam chocando-se em rochas
Amedrontadas que mais se enrijecem.

A voz macia da jovem bela jornalista,
Espelhando o medo no olhar,
Propaga o medo antes da novela
E incentiva comprar sonhos em Shopping Center.

O homem continua entre os carros,
Bate nas janelas
Que não se abrem.

Ele persiste.

@ Pedro César Batista - 2013

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Vamos acabar com o mundo da exploração



Acabará o mundo da desilusão,
quando o fim da exploração chegar,
quando a mentira deixar de bater às portas,
quando os humanos forem de fato fraternos,
quando a usura estiver na lata do lixo,
quando o poder for coletivo,
quando o egoísmo não mais existir,
quando a solidariedade for presente e constante,
quando as flores de todas as cores iluminar olhares.

Acabará o mundo da miséria,
quando a terra deixar de ter donos,
quando as plantações for para alimentar todos,
quando os causadores das dores da ignorância pagarem seus crimes,
quando a verdade histórica não for manipulada,
quando os produtores receberem de forma justa por seu trabalho.

Enquanto esse tempo não vem,
vamos continuar propagando a resistência,
espalhando forças e luz,
para que os mais humildes e sofredores,
em todas as suas formas,
possam ter energia para sonhar um novo tempo.

Ainda há tempo,
o amanhã não começou
e o mundo não acabou.

Ainda há tempo.

(pcb)

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Asa Norte

Flores secas nas prateleiras,
cores desbotadas, cinzentas e amareladas
piscam nas luzes do Natal.

Amontoam-se olhares na ponta da Asa Norte,
recebem cestas da expiação cristã,
brindes ao poder de ter e ser,
mais e mais para especular,
créditos para entrar nos céus.

Súditos, curvados,
oram
por suas migalhas.

Flores secas desbotadas pelos discursos
sangram a dor e a desesperança.

(pcb)

Pequeninos dedos

Domingo sem flores,
as crianças nos faróis,
não veem o caminho aberto.

Combatentes caíram;
outros, por migalhas, servem ao inimigo;
usar pessoas, tornou-se comum;
afrouxaram-se os abraços.

Estouram os trovões a leste,
Dylan ainda canta,
minha caneta não tem mais tinta,
ainda fala da esperança,
esperando a loja natal passar.

Quem sabe a chuva reavivará a semente,
destancará a maldade reinante,
jogando-a na vala da dor,
transformando-se apenas em adubo da luz.

As crianças nem poesia escutaram,
somente o fogo do cachimbo
queimando seus pequeninos dedos,
lhes acordam da dor.

Ainda é domingo
e Dylan segue com sua gaita.

PCB

Fuligem



Uma certa fuligem fria
exposta em alguns olhares,
propaga a servidão
curvada aos senhores
do passado e do medo.

Para alguns isso
faz o sangue ficar mais vermelho,
os cristais cantarem
proclamando sonhos.

Essa fuligem tenta apagar o tempo
impedir que seja desnudado
aos olhares do presente
o novo conquistado nas ruas.

Sem dúvida, virá a tempestade
lavando a alma
cantando as flores
que não deixam as fontes secarem
preservando-as jorrando sonhos
inundados de utopias

Nada afunda a história
dos apanhadores de estrelas,
iluminados pela esperança,
que resistem e navegam.

(pcb)

É natal!

Distâncias virtuais aproximam
O discurso pós- moderno
Em máquinas velozes
Últimos modelos
Provocam liberdade
Desejos de voar
Se libertar da monotonia da realidade
Seguir
Seguir
Ser feliz com as cores
Com os valores coloridos
Livremente seguir
Para os shoppings
É natal!!!!

(PCB)

tempo

Passado

l
a
d
o

obscuro no claro do tempo
onde a lua
espera o sol

n
a

m
a
n
h
ã

que insiste em vir tarde.

(pcb)

Não tenho pátria

a João Bosco Maia.

Se onde vivo não é minha terra,
se onde cresci não é minha terra,
se onde nasci não é minha terra,
sou um apátrida,
filho da vida,
irmão do vento,
parente das florestas e dos bichos,
da poesia e dos mares.

Sou semente da resistência,
germe da esperança da terra ser livre de proprietários.

Sou voz da indignação,
átomo da via láctea,
sem origem terrena,
integrante do cosmo.

Se onde vivo não é minha casa,
se onde cresci sou apenas um afiliado,
se onde nasci não integro,
tenho todas as galáxias,
todos os sonhos,
todos os mundos,
espalharei sorrisos e braços erguidos,
sem me assustar com o exílio.

(pcb)