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quinta-feira, junho 11, 2020

“O grito da batalha: Quem espera, nunca alcança! ”



Pedro César Batista

Unidade de Classe contra o opressor e seus lacaios.

A classe dominante conseguiu muitos aliados no meio dos explorados. Repete-se regularmente que não há mais luta de classes, que é preciso avançar na defesa dos interesses e empoderamento de categorias e setores, o que permitirá melhorar o capitalismo, dando-lhe uma face mais humana, e assim avançar na busca de outra sociedade, onde não exista mais explorados e exploradores.

Não faltam organizações e militantes que atuam exclusivamente em busca da hegemonia, protagonismo e empoderamento, na maioria das vezes com a perspectiva eleitoral, eleger seus quadros e ocupar espaço dentro do estado burguês. Não questionam o modelo de produção ou distribuição da sociedade capitalista, atuam apenas em torno de seus interesses específicos.

Em tempo de paz, no lugar de avançar a consciência de classe, possibilitar aos setores produtivos o protagonismo da história, fortaleceu-se uma concepção de empreendedorismo, individualismo, consumismo e da luta de setores identitários, sem destacar que a sociedade é formada pelos detentores dos meios de produção, controladores das armas, leis e do Estado, e pelos que vendem o seu trabalho, manual ou intelectual, dedicam sua energia e inteligência para produzir e prestar serviços que são apropriados pelos ricos que ficam cada vez mais ricos, ao mesmo tempo que os pobres mais pobres se tornam. Para estes deixam o sonho em comprar um novo modelo de automóvel, possuir altos salários e integrar a classe dominante, usufruir e consumir produtos e serviços produzidos por eles mesmos. Uma poderosa máquina de propaganda alimenta esta ilusão.

O empoderamento individual e de grupos setoriais substituiu a busca pela transformação da sociedade, a construção do poder popular e a conquista da revolução, a ruptura entre explorados e exploradores. Torna-se comum trabalhadores traírem sua classe em busca do status e micro poder, que nada altera as relações sociais e econômicas entre as classes.

Os partidos ligados aos interesses da classe trabalhadora, no lugar de forjar uma consciência baseada na história do desenvolvimento humano, propagam a ilusão de que basta votar, fortalecer sua corrente e hegemonizar movimentos que se avançará rumo a emancipação da classe trabalhadora. Lembram os encantadores de serpente, mágicos de quinta categoria ou pastores falastrões, que curam qualquer doença. Ilusionistas da crendice popular e falta de consciência sobre as contradições que permitem fazer a sociedade se desenvolver.

O desejo é cada um ter uma organização para dizer que é sua. Fazer um movimento para dizer que é seu. Ter uma corrente ou segmento que esteja sob a sua direção. Não levantam a bandeira da emancipação de classe, criam seguidores que aplaudem e repetem o que seus chefes afirmam. Verdadeiros oportunistas e demagogos se espalham. São substituídos pela revolta inconsciente da juventude, rebeliões de massas que não mais se sujeitam a opressão burguesa, apesar de muitos sonharem em substituir os senhores, não em destruí-los.

Aproveitando-se da despolitização, falta de coesão e consciência entres a classe trabalhadora a burguesia avança, fortalece seus setores mais violentos e reacionários, realiza cruéis ataques aos direitos sociais, políticos e econômicos conquistados ao longo de lutas na história. Neste quadro, usam, inclusive, a pandemia para dividir, desarticular e eliminar a resistência dos pobres contra os poderosos.

Paz entre nós, guerra aos senhores, afirma verso de A Internacional, que segue tão atual quanto necessária para derrotar os parasitas que se nutrem de nosso sangue, suor e trabalho. Por isso, forjar a união e organização da classe trabalhadora é a garantia de avançar na história e derrotar os inimigos de classe, começando pelos fascistas que estão no poder.

segunda-feira, junho 08, 2020

Nunca aprendi

Nem sei de nada,
Nem sei cantar,
Dançar, menos ainda,
Fazer discursos,
Declamar poemas,
Imitar pássaros,
Assobiar, nunca aprendi.

Nem sei de nada,
Não faço bambolê,
Nem nado sincronizado,
Decorar receitas de brigadeiros,
Fazer duas caras,
Enganar meu amor.

Nem sei de nada,
Suspiro facilmente,
Dedico meu coração,
Faço molotov,
Espalho indignação,
Combato senhores.

Nem sei nada,
Nunca aprendi,
Falar: sim, senhor.

Pedro César Batista

domingo, maio 24, 2020

Mortalício



Perdi as contas,
Uma longa convivência com a morte,
Por décadas ela rondou de verde oliva.

Adolescente fui preso e agredido.

Ela não demorou a surgir.
Sônia e Tuta foram dilacerados.
Traiçoeiramente acertou meu pai,
Um tiro de vinte, resistiu.
Henrique o salvou com meu irmão.
Nestor terminou levado por Netuno e Vênus.

Antes em uma avenida iluminada,
Ardilosamente por de trás de uma mangueira
O sicário estourou a cabeça de meu irmão.
O sangue jorrou, publicamente.
Batista deixou seu exemplo.

Covardemente outros foram mortos:
Gabriel, Salvador e Canuto.
Reginaldo, Jósimo e Antônia.
Epitácio, Rejane e Arnaldo.
Chico, Mauro e Doroty.
Adelaide, Paulo e Passarinho.
Carlito, ainda jovem, ficou cego,
Balas vazaram seus olhos.

Balas oficiais sempre mataram.
Nunca deixaram de derrubar corpos,
Pobres, negros e cheios de vida.

Agora a morte se alojou no terceiro andar
Do Palácio do Planalto.
Um esbirro do capital,
Mais um pistoleiro,
Trama mortes em rede nacional.

Estão no poder, outra vez.

O fascista e sua milícia
Aproveita a pandemia,
Aumenta a tristeza de famílias,
Milhares e milhares morrem.

O genocida comemora,
Algozes aos milhares,
Vestidos de verde-amarelo
Com ele festejam a dor.

Já convivi com a morte,
Perdi a conta.

Ela ainda insiste,
Ataca covardemente,
Traiçoeiramente,
Sorrateiramente,
Em nome de Jesus,
Deus acima de tudo.

Pedro César Batista

segunda-feira, abril 27, 2020

Lembranças do amanhã



Pedro César Batista

Afofarei a terra.
Sementes sempre germinam. Não duvido do tempo.

Frutos apodrecidos perfumam olhares,
Rabiscam folhas com lágrimas.

As flores sabem que amanhecerá
Cada palmo desterrado,
Corpos pobres jogados em valas.

A vida não esqueceu o sorriso,
Entregou-se ao fogo,
Fez-se gelo picado,
Misturado com matruz
Salpicadas no rum.

São muitas as dores.

Nem mais escutam os acordes,
A melodia é surda.

Eco não a conhece,
Apenas Narciso sabe de si.

A terra está encharcada,
Sangue pisado e contaminado,
Cheio de aflição e coragem.

Tem memória e história,
Tudo fica vermelho.

Os cravos florescerão,
Com estrelas no meio dia.

Te encontrarei
Na Praça da República,
Tomaremos tacacá
Contando lembranças do amanhã.

Centelha do amanha



Pedro César Batista

Nunca fui ou serei só,
Labareda é fogueira,
Combustão de sonhos
Incendiando almas,
Ilumina e aquece ventanias.

Nunca fui ou serei solidão,
Venho de muitos mares,
Síntese de todos os tempos,
Um templo ecumênico.

Meu sangue não tem pátria,
Sangra as dores de todos os povos,
Semeia flores de todas as cores,
É trincheira que não se acovarda.

Enganam-se os algozes,
Nada assombra a direção,
Sabemos o rumo a seguir,
Espalhar alegria e amor.

Nunca fomos ou seremos medo,
Conhecemos a dor da perda,
Encharcamos muitos solos com o sangue derramado,
Preservamos a disposição de combate,
Erguer punhos, somar abraços e forjar fogo.

Nunca seremos solidão,
Somos a confiança do amanhã.

terça-feira, abril 14, 2020

Maiakóviski



Cedo fiz ventania.

Armei-me de palavras,
Subi em bancadas.

Lavrei o perfume do fogo,
Encontrei a aurora,
Organizei fogueiras,
Pintei muros.
Desmantelei bastilhas.

Paris e sua coluna me animaram,
Faíscas labaredas e palavras de ordem
Todas as cores e formas.
Sem formalismo,

Fiz barricadas.

Arrebatei a lua,
Aliciei o amanhã.

Conquistamos uma era sem fome,
Com aquecedores e forjas,
Fartura de abraços e flores,
Abundância de direito.

Céu estrelado do meio dia.

Pedro César Batista

sexta-feira, abril 10, 2020

NOITE LONGA



NOITE LONGA

Pedro César Batista

Brasília – DF, abril de 2020

Já no quarto, puxou o fio para fechar a cortina, apagou as luzes e se dirigiu à sua cama. Ainda não era meia noite. Deitou-se, cerrou os olhos e tentou dormir. A temperatura da noite estava bastante agradável. Um leve vento trazia para dentro do apartamento, no terceiro e último piso do prédio, o perfume das árvores, que formavam um pequeno bosque. O céu estava estrelado, na linha curva do horizonte destacava-se a lua crescente, que levava uma nesga de claridade para o aposento. Antes de deitar, havia tomado um copo com água e andou de um lado para o outro dentro de casa. Na cama rodava, literalmente em círculos. Experimentou todas as posições e então ficou de peito para baixo. Com os olhos fechados começou a se perguntar por que tantos jovens, em pleno estertor final da ditadura, décadas atrás, haviam se encantado com um sindicalista, que dizia defender os interesses dos trabalhadores e combatia o socialismo? Era um tempo que os trabalhadores começavam a se mobilizar também no Brasil, recordava ele. Lembrou de um sindicato que tinha o nome bastante forte, Solidarnosc, e que significava solidariedade. Lembrou-se de que era um tempo em que parte significativa da juventude no Brasil lutava para derrubar a ditadura militar, enquanto, simultaneamente, na Polônia, Lech Walesa, líder operário dos estaleiros, em Gdansk, ganhava admiradores em várias partes do mundo, ele organizava grandiosas manifestações com trabalhadores dos estaleiros de sua cidade. Walesa desafiava o governo polonês, criticava o socialismo e a União Soviética. O discurso que ele fazia era reforçado nas campanhas do Ocidente, o qual combatia o Comunismo. O mundo vivia em plena Guerra fria. Walesa seduziu a juventude. Era um bigodudo, bonachão, gostava de vodca e falava muito em liberdade. Esse era o seu principal discurso, usado contra os países do Leste Europeu, liderados pela União Soviética. Dizia-se que: mesmo com a população tendo assegurada uma vida material estável, não se possuía liberdade. Tratava-se de uma campanha poderosa, comandada pelos EUA, contra o Socialismo. Foi nessa onda que surgiu o Solidarnosc, com seu líder bigodudo que encantou jovens militantes de esquerda. Ele, sobre aquela a cama, lembrava-se vivamente, da onda de propaganda em apoio ao sindicalista polonês. Passaram-se 40 anos, a URSS se desmanchou, as Alemanhas do Oriente e Ocidente voltaram a ser apenas uma, os países que integravam o bloco socialista no Leste se tornaram capitalistas. A Polônia, que foi no período socialista um país próspero e forte, tornou-se o oposto. Virou o que propagavam que era e não era, agora, nos anos de 2020, é um país governado por setores nazistas, que impõe um verdadeiro pesadelo ao seu povo, com um dos regimes mais retrógados do mundo. Se alguém usar o símbolo do comunismo, poderá ser condenado e preso, acusado de enaltecer os comunistas. As contradições entre ricos e pobres que quase não existiam na época comunista virou regra, alguns bilionários decidem a vida de milhões de pobres, que ganham mal para conseguir sobreviver. Tudo isso mexia com sua cabeça, não conseguia dormir. A cama parecia ter espinhos. Com o pensamento inquieto, levantou e foi para a sacada do apartamento. Instantaneamente pensou em acender um cigarro, mas romper com anos de abandono ao fumo, não foi o caso. Fazia um tempo que tinha parado de fumar. Olhou a lua no horizonte e seguiu a pensar na história que alimentou a admiração de milhões de jovens pelo Solidarnosc. Um turbilhão acontecia em sua cabeça. A noite continuava agradável e o sono não chegava. Seguiu debruçado no parapeito da pequena varanda.

No dia anterior, o que era raro, havia tomado pouco café, portanto isto não poderia ser o motivo para a insônia. Tinha participado de um encontro com a família. Visualizava um fosso entre ele e os familiares. Tinham um discurso e pensamentos aparentemente parecidos, mas cada um levava a sua vida isolada, com suas crenças e valores, não tinham muitas demonstrações de afeto ou mostravam querer saber como estava a vida do outro. Raramente se encontravam. O encontro havia sido casual. Sua família tinha origem bem diversificada. Uma parte vinha do campo; outra já nascera urbana. Os que tinham origem na cidade dedicavam-se ao estudo e possuíam vários diplomas. Tinham uma vida bastante pragmática. Para atingirem seus objetivos faziam o que fosse necessário, tinham o hábito de ir aos cultos e fazerem orações. Reforçavam sempre que Deus era o responsável por tudo que haviam conseguido. O outro lado da família com origem camponesa era humilde, mais introspectivo e não demonstrava uma ligação com a religião, falava da natureza, do cuidado com a terra, com os rios, o cultivo das plantas, as criações de animais e a colheita de alimentos. Os familiares do campo tinham, apesar de não demonstrarem, uma vida mais estável economicamente que a parte urbana. Durante o encontro, num bistrô, ocorrido à tarde, ele comeu apenas um bolo de abacaxi e tomou um café, servido em uma pequena xícara de cerâmica barata com desenhos orientais. Foi uma conversa muito amistosa. Fazia tempo que não tinham se visto. Não demorou muito e cada um seguiu para seu lado, para seus destinos. A insônia talvez fosse por conta daquele encontro, da conversa com os parentes, com a proximidade ausente entre eles. Será? Seria o efeito das vozes que ecoavam dentro dele naquele início de dia?

A memória voltou a lhe jogar para o final da década de 1970, num tempo parecido com o atual em que aquela noite estava inserida. Era um tempo em que conceitos fundamentalistas, sem nenhuma base científica ou histórica, brotavam como uma putrefação histórica. No passado, viveu-se uma ditadura, que prendia e matava. Ele pensou no que estava a viver em que a disseminação da violência individual como solução para os problemas sociais ressurgia, como se vivesse em uma fase da história em que o Estado não tinha força, quando cada um tinha que resolver de forma isolada seus problemas, o sentimento de cada um por si pulsava sobremaneira. Recomeçava-se um tempo em que as liberdades eram ameaçadas, direitos básicos eram retirados como se isso fosse correto e natural. Pisava-se com os dois pés no passado, mas o discurso que dominava era o de uma falsa modernidade. Pessoas que perderiam seus direitos defendiam o mesmo argumento usado para que essas garantias legais deixassem de existir. Havia um efeito anestesiante coletivo e expansivo. Um sono profundo abatia o coletivo. E não havia uma resposta ao amortecimento reinante. Os partidos e movimentos, autodenominados populares ou de esquerda, reproduziam a velha prática da institucionalidade, lideranças sindicais seguiam paralisadas atrás de suas mesas em gabinetes com ar condicionado, preocupadas em preservar o status quo, garantido pelos impostos e contribuições sindicais. O governo, que nada tinha de novo, extinguiu até o Ministério do Trabalho. Prevalecia o silêncio nas ruas, um silêncio sepulcral, enquanto vozes melosas e sádicas nos programas de televisão defendiam o retorno ao passado, como se fosse um futuro próspero o que viria. O sentimento de medo voltou, com calafrios, que causavam espanto, ao mesmo tempo que paralisava e assustava os que tinham vivido momento semelhante na história triste, história oficial do Brasil. Verdadeiros cadáveres, saíam de seus túmulos e se tornavam lideranças, trazendo de volta um tempo cinzento, sepulcral de muita dor.



O sono não chegava. Seria a ligação entre as ações do Solidarnosc e o fim do chamado socialismo real, ocorrido com o fim da URSS, que teria retirado das tumbas tantos cadáveres e amortecido a disposição de luta de lideranças de trabalhadores? Continuou com suas confabulações mentais. Por que as pessoas se tornaram tão individualistas e consumistas? A experiência do Solidarnosc teria contribuído para iludir tantas pessoas no mundo? Lembrou-se do argumento usado por alguns setores reacionários: Cuba só tem saúde, educação e segurança. E era isso que os povos do socialismo real possuíam, além de elevado nível cultural e social. Agora era diferente. Era cada um por si. O que importava era comprar, ter bens e dinheiro. Ser empreendedor. Até cultos da prosperidade se espalham pelas cidades. O que importava e importa e se dar bem e se sobressair de qualquer jeito. Não havia lucidez crítica por grande parte da população se uns conseguiam acumular bilhões e outros nem mesmo arranjavam o alimento básico. Isso se dava na Polônia e no Brasil. Esta concepção prevalecia no ocidente e parte significativa do planeta. Por quê? Mesmo com todos os equívocos, nos países que integraram o que se convencionou chamar socialismo real, havia mais justiça, igualdade e se caminhava para a efetiva dignidade humana. O que levou a ruptura, o ressurgimento da busca desenfreada pelo prazer individual, da satisfação da ilusão burguesa do consumo que ganhou o mundo e conseguiu derrotar a experiência de outra sociedade, outro mundo, em que se construía a igualdade e a justiça social?

Como conseguir dormir?

Os dias pareciam destinados a cavar grandes buracos, para servirem como covas coletivas, tal como aconteceu na Alemanha de Hitler. Esta prática foi comum aos nazistas. Os pelotões da morte, que avançaram sobre o território soviético mataram milhões de pessoas, muitas enterradas vivas. Tal prática era antecedida por uma espécie de seleção, feita principalmente por mulheres, de diferentes ramos de profissão, mas com o único intuito de promover a limpeza étnica da humanidade. Às professoras, por exemplo, cabia-lhes identificar e avaliar as crianças que poderiam viver, as que tinham traços arianos eram sequestradas e levadas para a Alemanha; as que não se enquadravam nos critérios definidos eram encaminhadas para campos de concentração, assassinadas em câmaras de gás. Também, lembrou-se das assistentes sociais e esposas dos soldados e oficiais da SS, a temida guarda nazista, que matavam indiscriminadamente. Recordou-se de uma, em especial, a Erna. Uma jovem nazista, que em 1941, na Ucrânia, ao visitar um gueto, ofereceu guloseimas para crianças, depois lhes atirou, friamente, em suas nucas. Os perpetradores e esquadrões da morte nazistas, durante a invasão da URSS, obrigavam as próprias vítimas a cavarem as valas em que seriam enterrados. O mundo caminhava de forma serena para uma grande triste cova coletiva. A experiência nazista parecia se repetir. Afirmou para si mesmo.

Nada do sono.

Gregório morava na capital do Brasil, uma cidade parque - bosque, uma obra modernista, construída por milhares de operários, a grande maioria oriunda da região nordeste do país, durante a gestão do presidente Juscelino Kubitscheck, que executou projetos do urbanista Lúcio Costa e do arquiteto Oscar Niemayer. Os dois foram comunistas, pensaram uma cidade que possibilitasse um mundo de igualdade e garantias aos seus habitantes. Uma autêntica utopia materializada em concreto. Nela, as famílias levavam suas crianças para os jardins nas entre quadras, organizadas e limpas, no bairro chamado Plano Piloto. Diferente de tudo, ao ser comparada com outras cidades em qualquer parte do planeta. Durante a sua construção, dentro do plano presidencial de 50 anos em 5, Kubitscheck exigia que as obras não tivessem intervalo, teriam que ocorrer 24 horas por dia. As obras não podiam parar. O ritmo era tão alucinante que se formaram pelotões para recolher os corpos que exaustos despencavam dos prédios em construção. Os operários caídos eram levados em padiolas e seus corpos nunca foram encontrados. Seus familiares nem sabiam de suas mortes. As obras seguiam freneticamente. Foi inaugurada então Brasília, em 21 de abril de 1960, um sonho que se tornou realidade. Vale sublinhar que, no final do século XVIII, José Bonifácio de Andrade pensou na necessidade de se fazer uma cidade no centro do território da colônia portuguesa, única forma de garantir a possessão. Era preciso ocupar o interior, não ficar apenas no litoral. No cerrado, terra inóspita e sem nada, dois séculos depois, nasceu uma cidade moderna, com largas avenidas, prédios redondos, bosques e parques planejados. Os detalhes foram minimamente pensados, esquematizados e executados. No instante dessa lembrança, veio em mente também que Brasília, quatro anos depois de sua inauguração, assistiu, assim como o restante do país, um grupo de empresários e militares, comandados pelo governo norte americano darem um golpe de Estado. Em 1 de abril de 1964 milhares de pessoas são presas, dirigentes sindicais são cassados e as entidades sofrem intervenção, o parlamento e a imprensa são censurados. Iniciou-se um tempo, que duraria 21 anos, de prisões, exílios, torturas e mortes. O arbítrio e o terror eram as normas.

Do sono, nenhum sinal.

Gregório da sacada do apartamento pensava o que era viver na capital do Brasil. Uma cidade feita para que sua população, de maneira cada vez mais generalizada, dormisse. Lembrou-se das filas no final da tarde, onde pessoas felizes, bem alimentadas e vestidas se reuniam para receber o Soma, no Admirável Mundo Novo, de Huxley. Os moradores de Brasília lhe fizeram lembrar a criação do autor inglês. Restaurantes lotados, avenidas entupidas de automóveis, a grande maioria com apenas um passageiro em seus carros novos, no final da tarde entrando em êxtase, provocado pelo consumo e o excessivo individualismo. Um sono profundo, viviam em um verdadeiro mundo de Alice. O Paraíso seria aqui na terra, com multidões que cantam gospel em orações da prosperidade. Um transe contagiante. Ou a cidade seria o contrário, aquele arranjo perfeito, com um belo jardim, nada fora do lugar que fazia as pessoas sofrerem insônia? Por que tudo aquilo lhe confrontava? Qual o sentido existente naquela insônia e na relação descrita, especialmente com o fim do socialismo?

Durante o tempo da ditadura, Gregório acreditava que sua família era muito grande e, mesmo com algumas diferenças, pensava que era mais unida, verdadeiro exemplo de união e amor fraternal. As diferenças se davam somente pelo olhar do tempo que se vivia. Uns queriam que se derrubasse a ditadura para implantar uma sociedade socialista. Acreditavam que a luta pela liberdade e democracia possibilitaria avançar na conquista de uma nova sociedade, onde haveria o controle do Estado pelos trabalhadores. Outros, atuavam como seres puros, não se misturavam com os outros, mesmo sendo da mesma família, ainda assim, achavam que sozinhos poderiam construir o que, aparentemente, todos demonstravam sonhar. Todos, uns com sua militância política, outros, com suas rezas e orações pediam paz e justiça. Até Lech Walesa, acreditava-se que também tinha o mesmo sonho por justiça. E assim o tempo passou. Muitos anos. Décadas passaram dentro daquele quarto. E nada do sono chegar. As paredes também ficaram acordadas. As luzes da sala permaneciam apagadas, apenas o reflexo das luzes da rua deixava à mostra a sombra de seus movimentos. Sombras discretas lhe acompanhavam, pareciam lhe observar e pareciam tentar dialogar com ele. Por de trás da cortina, a claridade das lâmpadas dos postes, da rua deserta, invadia discretamente a sala e a sacada de onde ele observava os movimentos inexistentes e estava a pensar para ver se o sono chegava. O tempo agradável se foi, chegou um calor, inesperadamente a brisa agradável sumiu o que só fez aumentar suas dúvidas. E eram tantas.

Recordou-se da Guerra Civil Espanhola. A monarquia foi derrotada e as forças populares iniciaram a implantação de uma república. Madrid ficou com o controle dos comunistas, socialistas e sindicalistas; em Barcelona assumiu a Aliança Revolucionária antifascista, integrada por anarquistas e trotskistas; e em Valença foi instalada a Junta do Levante, formada por extremistas e republicanos moderados de esquerda. Cada região controlada pelos republicanos passou a se defender isoladamente dos ataques dos nacionalistas. Derruti, dirigente da Confederação Nacional do Trabalho – CNT e líder da Frente Popular em Barcelona foi assassinado pelos próprios companheiros. Os republicanos acabaram entrando em uma disputa interna autofágica, suicida e terminou por leva-los a derrota. Hitler apoiou Franco, que venceu a guerra e implantou uma sanguinária ditadura, que durou até 1970 e deixou um saldo de 200 mil mortos. Se na Espanha a Frente Popular não se sustentou por falta de unidade, os fascistas, liderados por Franco tiveram como um de dos fatores da vitória, a unidade. Lembrou-se de Federico Garcia Lorca, poeta fuzilado em Granada por um pelotão fascista. A vitória franquista ocorreu meses antes do início da Segunda Guerra, quando os nazistas invadiram a Polônia, em setembro de 1939. Hitler, depois de seis anos cometendo genocídios, foi derrotado pelas forças soviéticas, comandadas por Josef Stalin, que, em maio de 1945, ocuparam Berlim. Recordou-se do que veio depois. Kruschev, no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, acusou o que foi denominado os crimes de Stálin e que Gorbatchov, em 1990, jogou a pá de cal na URSS.



Como explicar o encantamento que Gorbatchov ocasionou em várias partes do mundo, exatamente uma década após Walesa ter conseguido a mesma empatia? Uma fantasia se apoderou de muita gente, que acreditou que a União Soviética era o inferno vermelho, como propagavam os filmes de Hollywood. Quantos não falaram que o fim da URSS, provocado pela perestroika e a glasnost, traria um mundo mais justo, fraterno e solidário? Gorbatchov incutiu a ideia de que o fim da união dos povos que possibilitaria um equilíbrio no planeta que seria bom para a humanidade com a introdução da economia de mercado na terra de Lênin. O que se viu a seguir foram movimentos liderados por um alcoólatra, Boris Yeltsin, que, do alto de um tanque, fazia discursos contra a União Soviética, ao mesmo tempo que abria o país para o capitalismo, que em festa inaugurava lojas do Mc Donalds. Iniciou-se, então, com mais força ainda, uma campanha para negar a importância e o papel da URSS na libertação de milhões de homens e mulheres da miséria, ignorância e da escravidão imposta pelo império russo. Esconderam que o socialismo derrotou Hitler e seus perpetradores, o que impediu que o genocídio da limpeza étnica, ideológica e racial continuasse com o extermínio em massa. Omitiram que o fim do nazismo também colocou um fim à escravidão que alimentou a Volkswagen, BMW, Mercedes, Hugo Boss, Audi, Bayer, Basf, Siemens e IBM que usaram trabalho escravo de milhões de pessoas em suas indústrias alemãs. A indústria cultural e os meios de comunicação de massa não falavam da morte de 20 a 30 milhões de soviéticos, que enfrentaram o invasor nazista com o coração na ponta do fuzil, derrotando-o. Yeltsin, que do alto de um tanque bradou, agora teremos o Mac Donald e as luzes do acesso aos bens de consumo e da liberdade. E foi aplaudido em todo o mundo. Logo em seguida veio a reunificação da Alemanha, com a queda do Muro de Berlim. Não mais haveria o lado oriente e o lado ocidente, a Alemanha seria somente uma novamente. Gregório se lembrou então de suas conversas com o filho de um velho comunista russo, Alekxander, que lhe contou que a população dos países que formavam a antiga União Soviética se sentiu enganada pelos responsáveis pela desarticulação da união de Repúblicas. Antes os trabalhadores podiam participar dos sindicatos e decidir sobre a planificação na produção e distribuição de bens, serviços e produtos, que assegurava que não faltasse os itens necessários à sobrevivência digna de toda a população, as organizações de mulheres discutiam e definiam as políticas sociais, o mesmo que acontecia com a juventude, soldados, camponeses e todos os setores, que se reuniam nos sovietes para decidir os rumos do socialismo. Tudo acabou em um encontro de Gorbatchov, regado à vodca, com os presidentes da Geórgia e Bielorrússia, que sem consultar seus parlamentos, nem seus povos ou as demais repúblicas que integravam a URSS decidiram decretar a extinção da maior experiência de solidariedade e construção humanitária até então desenvolvida, destruíram a União Soviética. A federação que derrotou o nazismo, enfrentou a fome, o obscurantismo e comprovou ao mundo que era possível assaltar os céus foi desmantelada com apenas três assinaturas. Foi uma decisão muito rápida, conforme escreveu Maquiavel, o grande mal foi feito, dissolveu-se a maior união de povos livres criada na história da humanidade. O mundo capitalista aplaudiu. Os jornalistas áulicos do consumo, do individualismo e do capital elogiaram o fim do terror vermelho. Lojas de produtos de consumo seriam abertas, haveriam cores, luzes e cada um compraria o que desejasse, a livre concorrência do mercado seria implantada. O socialismo não dava lucro, não servia. E o sono de Gregório cada vez mais distante, assim como suas lembranças.

A noite avançava lentamente. Pensamentos voavam ao infinito, tentavam entender situações que permitiram o desenvolvimento da desumanidade. Uma enorme vontade de acender um cigarro, mas ele não mais fumava. A lua, suspensa no céu, observava aquele debate imaginário, conflitos, guerras, fome e injustiças sociais se misturavam com uma velocidade muito grande. Como àquela união de mais de uma dezena de povos, muito mais sólida que o principal opositor, os EUA, tinha sido dividida tão facilmente? Havia caído como um castelo de cartas. O ocidente capitalista venceu a batalha, ganhou a Guerra Fria. A URSS não mais existia. Por 73 anos deu esperanças a milhões de mulheres, homens e jovens de que poderia haver a dignidade plena à humanidade. Nada adiantou. A União Soviética se desmanchou, república por república. Em todos os lados se podia ver o velho palhaço, o Mac Donald, com suas luzes e cores, rindo da vitória conquistada. O povo alemão, logo após a sua reunificação, de acordo com pesquisas publicadas, queria o muro de volta. Era tarde, o muro tinha se esfarelado. Só uns pedaços de concreto resistiam. Uma forte onda liberal varreu os países do leste europeu, onde havia existido o que se chamou de socialismo real. Os russos e demais povos da ex-URSS sentiram-se traídos por Gorbatchov e Yeltsin. Eles não queriam o fim do socialismo. Agora estavam vivendo outros tempos. Não tinham mais assegurado seus direitos elementares, a sociedade se tornava cada vez mais injusta, com a formação de um grupo de milionários. Polônia, Hungria e Ucrânia tinham governos que se identificam com o nazismo. A Iugoslávia tinha sofrido uma guerra civil, tornando-se três países: Croácia, Macedônia e Servia. Todos com governos com forte influência nazista. Por toda parte o mundo se tornava mais injusto, não apenas onde um dia havia sido socialista. A liberdade tão propalada, que possibilitaria dar a felicidade a toda população, estava assegurada para a venda de corpos, do trabalho em troca de salários miseráveis ou por meio de aplicativos sem nenhuma garantia, nem mesmo de receber um pagamento. Ainda assim crescia o sonho em também ser um capitalista. Tornar-se patrão e ter seus empregados que produzissem riquezas e fossem explorados, o que parecia a cada momento mais distante e difícil, pois os ricos iam ficando mais ricos e os pobres mais pobres. O planeta passou a ser inteiramente controlado por um grupo de menos de 100 pessoas. Um punhado de bilionários que possui a riqueza equivalente ao que detêm mais de três bilhões de pessoas. Assim conseguem desconstruir cada vez mais a experiência do leste europeu. Os poderosos controlam a internet, as universidades, as redes de televisão, os portais de notícias e as informações que circulam no mundo real e virtual. Poderosas campanhas tornam as pessoas cada vez mais consumistas, egoístas e anticomunistas. Conseguem convencer os pobres e mais humildes de que a experiência soviética foi negativa. Intelectuais chegam a comparar o socialismo ao nazismo, como se um Estado sob o controle das classes trabalhadoras fosse igual ao que meia dúzia de milionários decidem a vida de milhões. Sustentam isso em salas de aula, como se verdade fosse. E as pessoas acreditam. A noite parece não andar. A lua continua no horizonte. Um traço apenas em que Gregório mira. O mundo parecia entrar em uma obscuridade absoluta. A claridade das luzes dos postes e o reflexo da lua crescente impedem-no de crer que a escuridão predominará. E nada, nada do sono chegar.

Aquela noite parecia dia. Um dia, como no tempo da juventude, quando se fazia de tudo a todo tempo e o dia nunca acabava. Era no tempo de Zuleida. Ela sempre estava cantando, encantando as pessoas e animando a vida. Estivesse acompanhada ou não com seu violão, um qualquer outro instrumento. Ela tinha a capacidade de espalhar e contagiar a alegria. Quantas vezes ao começar a cantar, o tempo parava. O vento e as folhas das árvores paravam para lhe escutar. Sua voz era tão envolvente, que até as nuvens ficavam mais lentas para ouvi-la. Passarinhos pousavam nos fios elétricos acima das cabeças que a escutavam e terminavam por compor a harmonia que encantava aquele momento inesquecível. Uma sintonia livre e fina. Quantas vezes o dia e a noite confundiram-se de forma mágica, seduzidos pela melodia da voz de Zuleida? As canções, cantadas por todos, falavam de sonhos, de dores e das conquistas obtidas nas lutas contra os que lhes ameaçavam. Inúmeras ocasiões, a noite mal havia dado seus primeiros passos, compondo os primeiros acordes daquela sinfonia inesperada e encantadora, quando chegavam os homens de coturno, com seus cassetetes na cintura, revólveres nas mãos, algumas vezes traziam cachorros bravos, tudo para que o grupo se dispersasse. Eles, os homens de coturno, impediam que os jovens se reunissem, demonstravam medo, um enorme medo de que a luz que a voz de Zuleida e o coro que ela inspirava pudessem derrubá-los. Sempre que o grupo começava a germinar, gestar seu crescimento, eles apareciam e usavam de excessiva violência. Praticavam uma violência desmedida para dispersar o grupo de jovens, em que Gregório sempre estava presente. Certa vez, a turma cantava para o alvorecer. Haviam saído da casa de um deles, onde haviam passado a noite em festa e pararam em uma praça. O sol ainda nem havia despontado, a noite estava se esticando maliciosamente pelos cantos do tempo. Os moços e moças, unissonantes, acompanhavam Zuleida, como fosse uma borboleta, com suas leves asas coloridas, leves e suaves, animando a brisa da madrugada. Uma composição em completa harmonia. Cada voz fazia parte da panapanã que sobrevoava as mais belas flores, que ainda dormiam, encantadas e enfeitiçadas pela voz da jovem que animava a noite, que se arrastava como uma leve vaga no rio preguiçoso, que brilhava sob o vento embalado pela claridade da lua. Ali estavam, quando sem esperar chegavam os homens de coturno, faziam muito barulho com suas vozes estridentes, totalmente desafinadas, acompanhadas pelo som mecânico de uma sirena em alto volume. Chegavam sem nada perguntar, nem pediam informações de nenhuma natureza. Chegavam para sufocar as melodias que despertavam a manhã, que logo mais despontaria. Era uma época em que o tempo, muitas vezes, escondia-se de tão assustado, os homens de coturno chegavam arrastando uma escuridão desconhecida para a noite, especialmente para aquelas noites, quando Zuleida e seus amigos cantavam para acalentar a manhã que ainda dormia fogosamente. Certa vez, levaram Zuleida e outros para a prisão. Buscavam amedrontar a madrugada, assustar a manhã, espantar o dia, que insistia em não acordar, enquanto dormitava ao som daquela sinfonia do vento, da lua e das vozes repleta de todas as luzes, magistralmente orientadas pela maestrina de pássaros e do tempo, que paravam para lhe escutar. Naquela vez, quando foram levados à delegacia, tiveram seus nomes anotados e foram liberados em seguida, depois de serem ameaçados a ficarem presos e serem proibidos de circular pelas ruas da cidade onde nasceram e viviam. Ainda assim, o dia amanhecia, iniciava e parecia nunca terminar, preservando uma relação de total entrega e amor à noite, que nem se percebia a diferença entre a falta de sono, a insônia e a tristeza que o tempo sofria quando o canto daquela orquestra silenciava.

Como Gregório não fumava mais lhe restava tomar um copo de água e retornar para a cama. Insistir com Morfeu para que o recebesse em seus braços e pudesse repousar e recuperar a tranquilidade necessária para enfrentar aquele tempo estranho. Nada. Deitava e não conseguia pregar os olhos. Como faróis seu olhar e sua mente seguiam caminhando de mãos dadas em busca do entendimento de tantas perguntas. Um entendimento que a ciência e a história poderiam esclarecer, mas muitas dúvidas afloravam diante das descobertas e recordações que lhe apossavam. Como tudo havia dado errado? Seguia se perguntando. Foram tantos momentos de alegria, não importava se a infância tivesse sido com fartura, tranquilidade e os cuidados de seus pais, com uma adolescência repleta de descobertas, aprendizagens e elaboração de sonhos. Estudou em boas escolas, teve bons professores e muitos colegas; sempre um aluno dedicado, estudioso e voraz leitor. Foi neste tempo que começou a participar da resistência. Gregório concentrou seu olhar na lua que ainda estava no horizonte. Aquele fiapo de luz brilhante. Lembrou-se das reuniões clandestinas do partido, as leituras obrigatórias, tarefas e debates; participava das brigadas que pichava os muros, acompanhava mais dois, um deles, o mais velho, tinha um carro, uma Brasília azul celeste. Pela manhã, sempre bem cedo, participava da distribuição de panfletos em portas de escolas, depois de já terem passado em obras de construção civil, garagens de empresas de ônibus e com os trabalhadores do comércio; recordou das brigadas para vender jornais, quando usavam megafone, para destacar as principais manchetes em discursos de agitação, sendo que, muitas vezes, foram obrigados a sair em desabalada carreira para não serem pegos pela polícia. Sempre conseguiam fugir. Os mais velhos, os dirigentes, constantemente recebiam em suas casas agentes da Polícia Federal, iam em busca dos jornais, livros e outros documentos, que eram guardados com segurança. A polícia nada conseguia. Foi o período que se criou por todo o país comitês pela Anistia, que conquistada, com a libertação dos presos políticos e o retorno dos exilados ao Brasil. O estranho nisso tudo, foi que os torturadores e os assassinos da ditadura nem foram a julgamento, não sofreram nenhuma condenação, ficaram impunes, apesar de tantas dores, mortes e crimes que praticaram. Lembrou que foi nesta fase da juventude que fez a escolha definitiva para o resto de sua vida. Decidiu estar ao lado de quem busca dignidade, justiça e a efetiva emancipação humana, fazer o combate à exploração, à opressão e à ignorância. E lá seguia, rodopiava na cama de um lado para o outro sem conseguir encontrar Morfeu. Lembrou-se do tempo que fumava. Como seria bom acender um cigarro naquele momento, saborear a fumaça, fazer círculos que se perderiam ao subirem aos céus. Por quanto tempo o cigarro, companheiro inseparável, acompanhou-lhe, nas mais variadas situações, fosse de alegria, com amigos e companheiros das lutas, nas manhãs, ainda antes de colocar algo quente no estômago, acender e fumar prazerosamente o primeiro cigarro das três carteiras que queimava ao longo do dia. Como explicar que as lutas, com perdas de tantas vidas, destruição de sonhos, não tenha ainda possibilitado a efetiva liberdade humana. Os escravocratas, seus lacaios e os algozes seguem no poder. Olhando para o teto pensa. Sim. Muitas conquistas foram resultado das lutas do povo; outras, pequenas concessões, fruto de acordos entre agentes que buscaram tirar algum proveito e garantir privilégios conciliando com os donos das riquezas para evitar que ocorresse uma ruptura na sociedade. Ocorreram muitas lutas e conquistas, mas o poder seguia nas mãos dos mesmos oligarcas de sempre. Os donos das terras, das indústrias, dos bancos e da informação. Pensava como eles conseguiram alimentar a divisão entre os mais necessitados, os mais pobres e entre quem diz defender a mudança das estruturas da sociedade, a destruição do Estado e do sistema. No lugar dos iguais se unirem, passaram a sonhar em poder subjugar e dominar os demais iguais a si. Pobre querendo ser rico; trabalhador sonhando em se tornar patrão; lideranças populares buscando apenas a hegemonia, sem efetivamente quererem transformar a realidade. Tudo programado pelos poderosos donos do poder. As mudanças sempre superficiais, pintam a fome e a desesperança com novas cores, cores mais brilhantes, iluminadas, com bastante tecnologia para ludibriar a amortecer a indignação. Que situação. Vive-se um dos piores momentos da recente história. O país tem um governo que propaga as mesmas ideias do nazismo, elogia torturadores e publicamente defende que é preciso matar. Não esconde isso. E não há resistência à altura. Cadê o enfrentamento aos herdeiros dos nazistas e dos torturadores, que conseguiram o apoio de pobres e humildes? Eles avançam, destroem as relações de respeito e a frágil democracia conquistada depois da ditadura de 1964. Tudo isso martelava em sua cabeça. Eram sons que o deixavam atordoado, aumentando mais quando via sua impotência. Nada podia fazer, nem mesmo dormir estava conseguindo.



A noite seguiu agradável e o sono se distanciava. Lembranças se apoderavam de sua consciência. Apesar de serem antigas pareciam seguir presentes. Lembrou-se dos caminhões do Exército, lotados com soldados que passaram pelas estradas perto da cidade de Imperatriz, atravessaram a ponte sobre o rio Tocantins como uma cobra venenosa se arrastando calmamente. Eram muitos caminhões, uma enorme fila indiana. Os poucos carros que circulavam na estrada, ficaram parados por um bom tempo, aguardando o comboio passar, levando milhares de homens vestidos de verdes. Podia-se ver muitas armas, metralhadoras enormes seguiam sozinhas na carroceria de alguns veículos, os soldados sentados levavam fuzis no colo. Levavam uma carga mortífera, como se fossem combater um poderoso exército inimigo. Circularam a informação que iriam combater os índios que atacavam as cidades na região do Araguaia. Todos acreditaram na informação divulgada, mentira que se propagou como uma nuvem pesada em toda a região, levando a escuridão sobre a verdade. O fato é que os milhares de homens de verde, jovens recrutas, também não sabiam que estavam se dirigindo para matar outros jovens, que abandonaram o conforto de seus lares, seus estudos e se dispuseram a viver junto aos camponeses na imensa floresta entre o sul do Pará, e o norte dos estados do Maranhão e de Goiás, depois dividido e que originou o estado de Tocantins. Gregório estava de olhos arregalados deitado em sua cama. Escutou o ronco de uma motocicleta enquanto recordava o movimento da frota do Exército seguindo para combater os jovens que acreditavam em um mundo de justiça. Ele era criança e acompanhou tudo. Hoje o fato é do conhecimento de toda a sociedade, apesar de que as mentiras divulgadas ainda prevalecem, escondendo os crimes praticados pelos homens de verde, comandados por oficiais do Exército, Marinha e Aeronáutica. Muitas informações sobre como foram realizadas as matanças pelos homens de verde ainda são desconhecidas, mantidas em sigilo pelo Estado, que assegura a impunidade dos assassinos fardados. Foi um tempo anterior à Copa de Futebol do Mundo, em 1970, no México, quando a seleção brasileira conquistou o tricampeonato. A conquista da Taça foi usada pelos generais, alimentou a alegria da população, que nem imaginava a dor de quem enfrentava a covardia de Ustra e outros torturadores, que sadicamente chamavam a casa de torturas e mortes como Casa da Vovó, quando pegavam algum suspeito na cidade de São Paulo. Também usaram quarteis e delegacias, onde aplicavam livremente a tortura em paus-de-arara, aplicavam choques elétricos, afogamentos, estupravam jovens e senhoras militantes. Foi um tempo de violência desmedida contra os presos políticos. Ele se lembrava de que as informações publicadas nos jornais eram censuradas por militares que ficavam dentro das redações. Nada se podia falar sem a autorização dos golpistas fardados, que matavam, roubavam e mentiam cinicamente, em nome do Estado, pagos com os recursos públicos dos contribuintes. Muitos dos milhares de jovens transportados nos caminhões também verdes nada sabiam, apenas eram informados que deveriam combater o inimigo interno, os comunistas e subversivos. Um período que deixou um número ainda desconhecido de mortos, a maioria formada por jovens que saíram de suas casas e se embrenharam dentro da floresta na esperança de conseguir acumular força para derrotar o arbítrio oficial, orientado e organizado a partir dos EUA. Lembrou-se do filme O dia que durou 21 anos, documentário produzido a partir de informações oficiais da Biblioteca do governo estadunidense, com todos os elementos sobre a ação do presidente Lyndon Johnson e do embaixador Lincoln Gordon, que dirigiram a ação em 1964. Todas as informações se tornaram públicas. Infelizmente apenas alguns jovens entre os que foram atacados pelas Forças Amadas Brasileiras na região do Araguaia sobreviveram. Os demais, quase uma centena, foram assassinados; uns em combate, como a jovem Elenira Resende; a maioria, entretanto, assassinada de forma covarde, após ser presa e sofrer cruéis torturas. Depois de mortos foram enterrados no meio da mata, em locais desconhecidos para que seus corpos nunca fossem localizados. Os documentos oficiais do Exército sobre o assunto não se tornaram públicos, apenas, descobriu-se, que uma parte foi incinerada. Passaram-se mais de 50 anos e dezenas de corpos até hoje não foram encontrados. Foi um tempo de mentira, morte e dor impostas pelo Estado. Gregório recordava dos caminhões passando sobre a ponte, paravam o trânsito e a população acreditava que os soldados se dirigiam para defender o povo, quando na realidade seguiam para atacar a população pobre da região, assassinar aqueles que ousaram enfrentar o arbítrio e o terror. Na região, durante a caçada aos guerrilheiros do Araguaia, organizados pelo PCdoB, muitas famílias foram destruídas, suas filhas estupradas, pais torturados e mortos, tudo em nome de uma pretensa segurança nacional, que transformou jovens soldados do Exército em assassinos. O comandante dos assassinatos, Sebastião Curió, promovido a coronel, terminou por ganhar uma cidade em sua homenagem no Pará, Curionópolis. Oficializou-se o sadismo de um Estado assassino contra seu povo. Foi um tempo de muito terror e tristeza, celebrado pelos criminosos com a criação de uma cidade para lembrar o chefe da morte. Gregório se levanta novamente. Deixou a luz do quarto apagada, orientava-se apenas pela claridade do luar, que ainda penetrava em seu aposento pelas frestas da cortina.

Foi até a sala da casa, acendeu a luz, dirigiu-se à estante de livros, começou a olhar um por um, prateleira por prateleira, procurava algum título. Terminou por retirar a biografia de José Saramago. Começou a folhear, estava em pé, terminou por sentar na poltrona do sofá. Localizou o que estava a procurar, a informação sobre a expectativa de vida em Portugal na década de 1930. Constou que não passava de 38 anos naquele tempo, nas terras de Pessoa. Leu umas duas páginas e abandonou o livro. Voltou a se encostar à sacada. A cidade seguiu dormindo, a lua permanecia com sua tênue luz, dourada e brilhante clareando a noite. Recordou-se de um momento no passado, quando teve um sério debate dentro da organização que atuava. Não fazia muitos anos que isto havia ocorrido. Era um grupo pequeno, onde todos os integrantes tinham estabilidade financeira, alguns com bons empregos públicos, outros, aposentados, quase todos com casa própria. Tinha um membro da direção nacional que possuía muitas propriedades, ele e a esposa eram de famílias tradicionais do interior de Minas Gerais. Eram criadores de gado holandês em uma fazenda de sua propriedade. Também possuía uma chácara onde havia uma biblioteca com milhares de títulos. Este dirigente era profundo conhecedor das obras de Marx e Lênin, entre outros autores revolucionários. Um erudito que tratava todas as demais pessoas olhando por cima, como se fosse superior. Dizia-se comunista. Apenas o apartamento onde ele morava estava avaliado em alguns milhões de reais. Na organização, a única pessoa que estava desempregada, pagava aluguel e tinha uma família enfrentando dificuldades era a de Gregório. Isso não reduzia sua dedicação ao trabalho revolucionário na construção da organização. Podia-se afirmar que era um dos mais dedicados, mesmo enfrentando constantes dificuldades materiais. A noite seguia iluminada pela lua. Nada do sono chegar. Fazia mais de um ano que ele estava desempregado, pensava. Nunca havia recebido uma manifestação de solidariedade dessa organização, que seguia publicando documentos bem elaborados e inelegíveis para a maioria da população com textos rebuscados e eruditos, inclusive muitos militantes não entendiam o que estava escrito. Ele analisou que a organização não conseguia falar para fora. Nem mesmo para dentro agia, mostrando ser apenas um aglomerado de intelectuais, que se satisfaziam em discussões que não se materializavam, elaboração de textos letrados e discursos radicais. A maioria de seus membros possuía um elevado padrão de vida. Olhando a lua pela janela, Gregório pensava como iria pagar o aluguel. Atuava profissionalmente como um revolucionário, seus pensamentos, ações, textos e amizades sempre procuraram reforçar a busca por um novo tempo. Recordou-se de quando descobriu que havia sido retirado da Comissão Política do Comitê Central dessa mesma organização. Levou o debate para dentro da estrutura de direção. O secretário geral, criador de gado nelore, sempre realizava as reuniões do Comitê Central em seu luxuoso apartamento, onde duas trabalhadoras domésticas preparavam as faustas refeições para os dirigentes, em que ele estava inserido. Gregório questionou por que ele havia sido removido do órgão de direção política, o proprietário do apartamento ficou nervoso, quando afirmou rispidamente que o comitê que decidiu. Porém, mais ninguém se manifestou. Ficando claro que foi uma decisão do dirigente proprietário do apartamento a exclusão. Isto terminou por causar o afastamento de Gregório do grupo, que seguiu como um coletivo diletante com discursos radicais. Saiu da organização, não do combate, nem da trincheira. Continuou inserido nas lutas, e seguia desempregado, sofria boicotes de muitos dirigentes. Observou que prevalecia entre muitos ativistas uma enorme falsidade, grassando o oportunismo em torno de interesses pessoais e menores. Não tinha dúvidas. Este comportamento de muitos dirigentes das organizações pretensamente de esquerda havia sido determinante para que ocorresse a eleição do governo nazista que dirige o Brasil. – Como? Falou em voz alta, como se dialogasse com a lua que continuava sobre o parapeito da sacada. – Como se a própria organização não pratica internamente a justiça? Muitos integrantes da sua antiga organização não passavam de demagogos. Nada além disso. Recordou uma viagem que fizeram para a Rússia. Foram pessoas de muitas organizações. Um dos que mais chamava a atenção era o proprietário do apartamento e dirigente comunista ao esbanjar, realizando compras de forma acintosa, enquanto vários que integraram a caravana fizeram a viagem com muita dificuldade. Viajaram para participar da comemoração do centenário da Revolução de Outubro de 1917, na cidade de Moscou. Por que não havia saído antes do grupo de oportunistas? Pensava. A noite não respondia, a lua seguia calada, as estrelas brilhavam e dançavam como fechos de luz estroboscópica no cosmo, em um salão de baile que cabia todas as pessoas. E lá seguia ele. Nada do sono se aproximar. Quanto mais pensava nas contradições que a vida lhe mostrava, mais alerta ficava. Não conseguiria dormir tão cedo. Cansou. Resolveu voltar ao livro da biografia de Saramago.

Folheou, não conseguiu se concentrar. Lembrou-se do último livro que Saramago escreveu, A Viagem do Elefante. Assim tem sido a vida, o peso nas costas, as dores do tempo, a morosidade da burocracia estatal para atender os interesses dos mais necessitados, que terminam por viver abandonados e largados à própria sorte. Como a viagem do elefante Salomão, que seguiu com seu fiel cornaca, Subhro, na longa turnê até a Áustria. Saramago, ferino e mordaz, com suas características encantadoras. Um dos maiores autores de todos os tempos, renegado em sua terra, justamente por sua justeza e precisão literária, com criações infindáveis sobre a vida e o comportamento humano. Sim. A humanidade seguia cega, em sua jornada, misturada em meio às putrefações produzidas pela sociedade de consumo, egoísta e autofágica. Ninguém escapava de O ensaio sobre a cegueira, que arrastava todas as pessoas, com o crescimento do hedonismo e um individualismo ensurdecedor, o aumento da exploração dos mais ricos que alimentava a competição entre os pobres. A cegueira avança assustadoramente. Gregório imaginava a posição dos movimentos que não se uniam. Mesmo integrando a classe dos que possuem somente a força de trabalho e a inteligência para vender, mulheres não se uniam aos homens, negros não aceitavam brancos e outros setores, como homossexuais e lésbicas não aceitavam construir ações com quem não fosse de seu grupo ou segmento. Era cada um formando seu grupo, partidos nasciam falando em nome da classe trabalhadora, sem trabalhar para unir os explorados. Faziam discursos, atuando somente em busca do protagonismo de suas posições e correntes. Isto tudo sem se atentarem que para milhões de pessoas o único alimento era conseguido nas latas de lixo, que sustentavam multidões de miseráveis (abandonados por quem se dizia ou se diz de esquerda ou revolucionário), tratados de forma inferior aos detritos, que são reciclados, enquanto os condenados da terra se transformavam em restos da espécie humana, que se amontoam, cada vez mais, em guetos abandonados de pessoas esfomeadas, sem tetos, sem pátria, sem perspectivas. Uma intermitência da miséria, como a morte, que não poderia atravessar a fronteira. A polícia seguia fiscalizando para que não fosse descoberto outro horizonte, outro modo de viver, outros sonhos. Era proibido sair do que se propagava o sistema. As massas eram massas para os poderosos, mãos úteis que serviam para atender os interesses para a acumulação dos ricos. Eram lembradas em horas de votar, justificariam a farsa da democracia dos ricos que seguiam controlando tudo. Saramago havia saído da linha, rompeu com o sistema, com a gramática, com o poder. Saramago era inspiração por um novo olhar. Quem sabe agora ele poderia dormir. Olhou o céu, estrelado, a lua baixava calmamente, sem pressa.

Voltou para a cama, ficou rolando de um lado para o outro. Seguiu de olhos abertos mirando o teto do quarto. A penumbra da noite se confundia com a nesga do reflexo da luz da lua crescente que insistia em invadir o quarto. A história continuava. O mundo enfrentava o Corona vírus, com milhares de pessoas morrendo em todos os continentes. Para não mudar o roteiro, os detentores das riquezas seguiam inventando mentiras, desafiando a verdade e invertendo os fatos. Em pouco mais de dois meses aproximadamente 100 mil mortos e 1,5 milhão de infectados causados por uma doença infecciosa, ainda sem cura. Nem havia sido descoberta uma vacina. Circulava a informação que a doença foi criada em laboratórios norte-americanos e levada para a China. Wuhan, a cidade na terra de Mao Tse Tung, onde se identificou pela primeira vez o vírus, impôs um ostensivo recolhimento e controlou a contaminação, depois de uma reclusão absoluta da população. E agora, no Brasil, seguindo orientações do presidente nazista realizam-se carreatas em várias cidades pedindo que se suspenda a quarentena imposta. Motoristas em veículos de luxo, mostram a bandeira nacional, realizam manifestações exigindo que a população não fique isolada e tudo volte a funcionar normalmente. O Brasil não pode parar é o slogan criado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, é a palavra de ordem do movimento, formado por magnatas, grandes empresários e gente inculta, que, mesmo com a orientação científica de profissionais da medicina de que haverá milhares de mortes, caso não se faça uma quarentena de toda a população, única forma de preservar a vida e combater a disseminação do covid-19, existe um movimento para que se volte a uma normalidade que jamais será a mesma. A loucura toma conta das ruas, setores abastados, liderados por um nazista pedem o fim da quarentena. Afirmam que não importa se morrerão sete ou dez mil de pessoas, o que vale é cuidar da economia. O presidente vai à televisão, em rede nacional, defender que se volte à normalidade, na contramão de todas as orientações científicas. A Organização Mundial da Saúde divulga diariamente as informações sobre as mortes que estão ocorrendo em todo o mundo. No Brasil, morrerão principalmente os pobres, quem não têm acesso ao saneamento, nem boa alimentação, nem higiene. Pastores brigam para reabrir suas igrejas, mesmo sabendo que onde ocorrer aglomerações o vírus se disseminará. Nos EUA, o presidente Donald Trump, que pensa como o congênere brasileiro, defendeu o relaxamento do isolamento, o que causou em seu país o maior número de mortos, especialmente entre os negros da periferia de Nova Iorque. Gregório, sozinho em sua cama, assombra-se. Como entender ter chegado à Presidência do Brasil um genocida. Lembra que o principal dirigente do país foi deputado federal por 28 anos. Sua trajetória começou quando tentou explodir uma bomba em um quartel, onde servia como tenente. Foi expulso, conseguiu recorrer e acabou aposentado, após conseguir um empate em uma votação no Superior Tribunal Militar. Ainda conseguiu uma promoção a capitão. Sempre atacou as mulheres, a quem considera seres inferiores, o mesmo que sempre falou de negros e homossexuais. Seu herói é um assassino, o único condenado pelos crimes da ditadura, Brilhante Ustra, o chefe da triste Operação Bandeirante, que funcionou no local onde sadicamente os torturadores e assassinos chamavam “Casa da Vovó”. O nazista conseguiu, com o apoio de programas policiais, feito por jornalistas que babam sangue, desabrochar a maldade e a crueldade em muitas pessoas, que agora defendem que podem morrer alguns milhares para salvar a economia. Ao mesmo tempo, o governo destina mais de um trilhão de reais aos bancos e empresas aéreas, enquanto oferece migalhas aos pobres. E há pobres que o aplaudem. O discurso repete a acusação aos comunistas. Um pesadelo que parece nem ter começado, pensa Gregório. É um tempo estranho. As amizades se perderam, as pessoas vivem isoladas em celulares, desenvolvem uma prática niilista sem fim, voltadas para satisfazer seu hedonismo. Os nazistas, mesmo tendo sido derrotados, seguem propagando mentiras e perseguindo os negros, pobres, ciganos, palestinos, imigrantes, mulheres, homossexuais e comunistas. Como explicar isso? Seguiu falando consigo, Gregório. A tecnologia aumentou a produtividade de uma forma vertiginosa, enquanto a riqueza mais se concentrou nas mãos de poucos. Tudo com a mesma velocidade das novas comunicações, que leva às pessoas a solidão, ao desespero, a formação de multidões que sobrevivem com remédios controlados e indicados por médicos, verdadeiros vendedores e porta-vozes de laboratórios das multinacionais. A população cada vez mais dispersa, com pessoas separadas, sem conseguirem ter empatia ou alteridade com os demais seres humanos, o que é vital para a espécie. Mesmo sendo iguais em suas necessidades e capacidade de trabalho, vivendo graças a venda de sua energia manual ou intelectual a grande maioria segue sem ter a consciência necessária para tomar as rédeas da história. Setores oriundos das camadas médias e da pequena burguesia criaram movimentos que almejam o empoderamento de seus grupos sociais, como apontado por Michel Foucault, em sua Microfísica do poder. São muitas as formas usadas para fragmentar a classe explorada, que não entende a necessidade de sua unidade e consciência de classe para si, capaz de agir como um sujeito histórico e social. O que vale é a identificação em gênero, cor ou raça, enquanto os detentores do capital seguem controlando mais riquezas e almas unidos, coesos e organizados mundialmente. Os comunistas são ultrapassados, velhos dinossauros e não servem mais, propagam os novos agentes a serviço da burguesia. Isso leva a consequência imprevisíveis a todos os seres vivos. Mais destruição da vida em todas as suas formas, mais desertos se formam, mais inundações ocorrem. Mais lágrimas são desperdiçadas, menos abraços, menos beijos, menos cuidado entre os seres vivos. O planeta, assim como Gregório, não consegue mais dormir. Os dias e noites se desencontram, dispersam-se e se desesperam. A luz da aurora desponta por detrás da sacada, ele observa e se levanta. Lembra-se de que tem uma carteira de cigarro em uma gaveta no armário da cozinha. Vai até lá, coloca água no fogo, prepara um café e coloca na xícara, pega um cigarro, dirige-se à varanda e o acende. Pensa no renascimento. Um novo tempo sem dor, onde a solidão será de paz, a morte, natural, no tempo certo, em que as traições estarão somente nos registros da história, um tempo a ser conquistado.

Um novo dia desponta no horizonte.

sábado, fevereiro 15, 2020

Mudez



Uma música desafinada,
Acordes sem ritmo,
Passos bêbados na madrugada.

Tropeções nas palavras,
Quedas inesperadas.

O ar pesado,
Um hálito fétido
Dissemina-se pelo ar.

Nuvens cinzentas encobrem o céu,
Instrumentos em desacordo tentam ritmar a melodia.

Solfejos querem afinar as notas,
Isoladas sem acompanhar a canção.

Verdadeiro canto em desencanto.

O vento não se movimenta,
As folhas não dançam,
Flores não espalham suas cores nem aromas.

Bússolas sem direção.

Instrumentistas se perdem,
Abandonam o rumo.

Eco tão forte,
Sem som,
Ensurdece o tempo.

Pedro César Batista